Editorial
Editorial Sinal de alerta Começa hoje em Haia um foro mundial destinado a sensibilizar a opinião pública e os dirigentes do planeta em relação ao problema da escassez de água, uma das questões mais sérias atualmente enfrentada pelo homem e que tende a se agravar no próximo século. O Foro Mundial da Água vai agrupar três eventos. O foro propriamente dito reunirá durante seis dias cerca de três mil participantes, entre profissionais, personalidades e público, uma vez que a única condição para participar é o pagamento do ingresso (US$ 500), prevendo-se a realização de 86 mesas-redondas e centenas de seminários que poderão ser acompanhados parcialmente pela Internet. Paralelamente, será organizada uma feira-exposição, na qual as agências da ONU e as multinacionais do setor apresentarão aos cerca de 30 mil visitantes suas receitas para abastecer corretamente de água os atuais seis bilhões de habitantes do planeta, que devem chegar a oito bilhões em 2025. Finalmente, uma conferência de dois dias da qual participarão representantes de 100 países (ministros do Meio Ambiente ou de Recursos Hídricos) encerrará o Foro, com a adoção, prevista para o próximo dia 22, de uma declaração de caráter geral. Três relatórios foram elaborados para o Foro por órgãos patrocinados pelo Banco Mundial. O primeiro, Visão Mundial da Água, redigido pelo Conselho Mundial da Água, descreve a situação atual e faz uma previsão para 2025 se novas estratégias não forem adotadas. O segundo é um Padrão de Ação, definido pela Associação Global da Água, que dá sugestões para mudar a situação. O terceiro, por sua vez, é um resumo preparado pela Comissão Sobre a Água no Século 21. Os três textos lembram que um habitante do mundo em cada cinco (1,2 bilhão) carece atualmente de água potável e um em cada dois (3 bilhões) não dispõe de serviço de esgoto. Se não for adotada uma política de luta contra a má administração e a contaminação da água, 3 bilhões de pessoas terão menos de 1.700 metros quadrados de água por ano, em 2025, dado considerado pela ONU um sinal de alerta. A maioria dos países do Hemisfério Sul sofrerá com uma grave escassez de água e é prevista inclusive a ocorrência de conflitos nas regiões mais áridas. Os países ricos, por sua vez, poderão enfrentar sérios conflitos regionais. Aalt Leusink, um dos chefes do comitê organizador, assinalou que este segundo Foro Mundial da Água não tem nada a ver com o primeiro (que reuniu cerca de 500 especialistas em Marrakech, em março de 1997) nem com a Conferência de Paris sobre Água (da qual participaram, um ano mais tarde, 86 chefes de Estado ou de Governo e 1,2 mil delegados). O foro de Haia não é uma conferência diplomática e sim um foro, reforçou Leusink, sendo que o objetivo do evento é reunir o maior número possível de pessoas, para que a gravidade dos problemas e os esforços necessários à sua solução sejam compreendidos. Não é um problema de interesse restrito ou de algumas regiões do planeta. Afeta a Terra e reclama a adoção de ações objetivas para enfrentá-lo. Quando se sabe que atualmente três milhões e quatrocentos mil seres humanos morrem a cada ano por doenças relacionadas com a água, sendo que a metade deste total é representada por crianças, é mister observar que a questão atinge com maior força países não desenvolvidos, carentes não só de água mas de serviços essenciais de tratamento. Diante deste quadro, é vital o desenvolvimento em cada país de programas concretos e urgentes no sentido de apresentar alternativas capazes de evitar o agravamento da situação, com todas as suas assustadoras consequências.





