Dentro de 120 dias não haverá mais buracos nos 51 mil quilômetros de estradas federais do País e as rodovias estarão com nova sinalização horizontal, tanto no meio quanto nas laterais. São informações que poderiam ser consideradas um sonho, mas tudo isto foi anunciado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso no programa que faz semanalmente pelo rádio e se intitula ‘Palavra do Presidente’. Segundo FHC, as melhorias serão feitas numa operação de emergência, que será iniciada dentro de 15 dias pelo Ministério dos Transportes. Posteriormente, a operação vai dedicar-se à recuperação de trechos totalmente destruídos, com previsão de término no ano 2001.
Para um país de dimensões continentais como o Brasil, a conservação e recuperação representa mais que um compromisso de governo - é uma necessidade vital para a economia. A verdade é que o Brasil, devido ao seu próprio tamanho e condições geográficas, deveria ter buscado outras opções para o transporte em geral. Lamentavelmente, porém, pouco se fez em relação às ferrovias - que não se desenvolveram como nos Estados Unidos, por exemplo - e nem mesmo no que tange à cabotagem, apesar da extensa área marítima nacional. Por aqui, as rodovias foram priorizadas de tal modo que o ex-presidente Washington Luiz cunhou a frase segundo a qual ‘governar é construir estradas’.
Naturalmente, ainda é possível e desejável melhorar as condições da cabotagem, o que inclusive deve acontecer quando se regulamentar as modificações que permitirão a exploração deste meio de transporte por empresas estrangeiras. Igualmente tem sido interessante o planejamento para a exploração das hidrovias, que oferecem excelentes possibilidades para a melhoria da circulação de riquezas pelo país. Todavia, quando se tem uma tão grande malha rodoviária, quando se sabe que a maior parte do transporte no país é feita por caminhões, é natural perceber como é vital que se recupere as estradas, que hoje, de modo quase geral, estão em condições muito precárias.
O presidente admitiu em sua fala o que se sabe: os buracos ‘‘dão prejuízos incalculáveis’’ e ‘‘muitas estradas estão praticamente intransitáveis’’. Ele justificou esta situação alegando ‘‘falta absoluta de recursos’’. Não pretendeu jogar a culpa sobre os antecessores, o que seria possível, mas não resolveria nada. A verdade é que no Brasil conservar e recuperar obras públicas nunca foi considerado importante para os governantes, até porque não soma muito às estatísticas. Um bom e próximo exemplo disto é o da Ponte dos Remédios, em São Paulo, construída há 30 anos e que ameaça ruir pura e simplesmente porque ninguém se preocupou, neste tempo todo, em dar-lhe manutenção.
No caso das rodovias brasileiras, esta falta de cuidado é histórica. Muitos construíram estradas, poucos pensaram em conservá-las. E, como tanta coisa, também já estava passando da hora de se cuidar deste aspecto, ao tempo em que se reclamam estudos no sentido de desenvolver outros meios para abrir realmente as vias deste país. A simples melhoria das estradas, agora anunciada pelo presidente, poderá ajudar em muito a própria economia, inclusive o plano de estabilização, na medida em que reduzirá os custos do transporte, os prejuízos dos caminhoneiros e facilitará a circulação, fato fundamental para um bom desenvolvimento do processo produtivo. Não se trata de uma reforma estrutural, não precisa (felizmente) de aprovação do Congresso, depende apenas da disposição do governo federal e de trabalho. Se resolver o problema, mesmo, em 120 dias, o presidente terá dado enorme contribuição para a melhoria na vida de todos os brasileiros.

mockup