Editorial
A continuada tendência de queda da inflação, conforme os mais recentes índices, apesar de fatores negativos como a elevação de tarifas públicas acima da taxa inflacionária e a demora na concretização das reformas estruturais, pode provocar a idéia segundo a qual a estabilidade prescinde de tais medidas. Na verdade, já houve afirmativa nesse sentido, indicando que com ou sem as reformas, o País conseguirá atingir a desejada estabilidade na economia.
Trata-se, porém, de um engano - além de tudo, muito perigoso. É preciso insistir em que conseguir fazer a inflação baixar dos tenebrosos índices de antes do real para patamar menor não era tão difícil quanto se poderia pensar. No Plano Cruzado, isto foi conseguido. O mesmo com o saque feito pelo governo Collor, ao se instalar. Em função de muitos descalabros e, notadamente, da correção monetária, criou-se situação econômica artificial, alimentada por uma indexação que acabava sendo realimentadora constante dos índices inflacionários. Bastava conter a indexação para se fazer a inflação baixar. Mas, como também se percebeu com o fracasso dos sucessivos choques que vieram antes do Plano Real, desindexar não resolvia o problema. Assim como congelar preços também era um meio artificial de vencer o desafio.
O atual plano de estabilização, como se repetiu muitas vezes, é inegavelmente superior a todos os precedentes. Tem uma estrutura e uma engenharia bastante adequadas. E isto se comprova até pelo fato de, após três anos, o panorama estar efetivamente melhor que o dos outros programas econômicos. Todavia, o que se necessita não é de um programa que dure muito, mas de um projeto que continue ao longo do tempo. A previsão para a inflação deste ano é boa, mas o desafio é estabelecer bases sólidas que permitam a manutenção deste quadro, inclusive com outros efeitos benéficos, como o crescimento auto-sustentado, a criação de empregos, melhores oportunidades para a população, enfim, tudo o que se tem o direito de reclamar em uma sociedade civilizada.
O grande problema não resolvido pelos planos anteriores e que pelo menos foi equacionado no atual projeto de estabilização é o do tamanho do Estado. O incontrolável déficit público, que se espraia pelos níveis federal, estaduais e municipais, é o fator vital do descalabro, tumultuando a vida e provocando todas as dificuldades. Para resolvê-lo, não há outro caminho a não ser a reforma do Estado, conforme o proposto nas mudanças institucionais. A dinâmica do projeto lançado no governo Itamar Franco, incluindo o remanejamento dos recursos formados pelo Fundo Social de Emergência, permitiu um resultado como jamais se havia alcançado antes. Mas é não só ilusório, é perigoso pensar que sem as reformas, principalmente administrativa, tributária e da Previdência, será possível continuar o programa, mantendo a estabilidade e criando condições para a retomada do crescimento sem inflação.
Isto significa que quem combate as reformas está basicamente ameaçando a própria sequência do plano de estabilização, com todos os efeitos que disto podem decorrer. Partidos e políticos, principalmente os que apóiam o governo, tiram grandes benefícios do real e formam até substancial maioria no Congresso, precisam parar de enganar o povo e assumir seu papel na complementação do processo de reformas, condição fundamental para garantir a tão festejada e necessária estabilidade da economia.





