Editorial
Em entrevista à imprensa italiana, o presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), monsenhor Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, pediu aos países do Continente para que lutem contra a corrupção. As declarações do presidente do Celam foram feitas ao jornal católico italiano Avvenire, depois do primeiro encontro entre a Igreja Católica e as maiores entidades financeiras mundiais, Banco Mundial, Fundo Interamericano de Desenvolvimento e Banco Interamericano de Desenvolvimento, realizado na semana passada e em que se analisou o desenvolvimento na América Latina.
Rodríguez afirmou que boa parte da ajuda econômica distribuída por aqueles organismos não chega ao destino devido à ação dos corruptos, motivo pelo qual considera absolutamente necessária uma luta plena contra este mal, como contrapartida que os países do Continente devem oferecer aos órgãos internacionais para reduzir os problemas que afetam a praticamente todo o hemisfério.
A corrupção, que parece ter-se tornado prática cada vez mais comum entre os governantes, tanto na América Latina quanto no resto do mundo, constitui, inegavelmente, enorme desafio para que se consiga superar alguns dos entraves ao desenvolvimento humano. No passado, alguns levantamentos relativos a desvios de recursos emprestados pelos organismos internacionais aos países pobres ofereciam lamentável quadro de abuso. E nem é preciso ir longe para perceber o efeito disto quando se sabe, por exemplo, que o recentemente deposto presidente do Zaire, Mobutu Seko Zese, acumulou fortuna incalculável nos 30 anos em que dominou o país. A história dos ditadores, na África como na América Latina, aliás, é plena de tais exemplos. E todos eles, quando depostos, passaram a usufruir dos bilhões que desviaram de seus povos, numa criminosa aposentadoria.
As coisas estão começando a mudar no mundo, como se observa pela reação ocorrida precisamente após a queda do citado Mobutu: a Suíça, atendendo apelo dos novos governantes do Zaire (que mudou até o nome, voltando a ser Congo), anunciou o bloqueio dos bens em nome do antigo ditador no país. Pode ser que o que foi roubado do povo faminto do Zaire não volte, mas é certo que o antigo ditador terá problemas para gastar o seu saque. Se esta forma de agir dos suíços em relação a Mobutu se disseminar, como resultado do apelo do presidente do Celam, é possível que haja esperança efetiva no combate ao assalto criminoso que governantes (nem sempre ditatoriais) realizam contra seus povos. Pois o certo é que esta luta não se restringe apenas aos países vítimas desta prática, mas deveria ser assumida por todos quantos, no mundo, têm um pouco de consciência.
A corrupção pública representa, sem dúvida, um dos mais sérios problemas com que se defronta a humanidade na tentativa de construir uma sociedade mais digna e humana. E é fora de dúvida que para vencê-la é necessário efetiva conscientização mundial contra ela. Não é tarefa fácil, ainda mais porque os meios disponíveis para corromper são imensos e a falta de penalidades mais concretas, o encobertamento que muitos ainda dão aos criminosos que saqueiam seus povos, isto tudo acaba tornando fácil roubar e difícil provar.
Como em muitos outros casos que envolvem relações globais, só será possível ação concreta contra a corrupção a partir de uma vontade mundial. Isto implicaria em acabar com os paraísos fiscais, os locais em que o dinheiro troca de mãos sem nomes ou perguntas. Enquanto houver paraísos para os corruptos, será impossível vencer a corrupção. É um trabalho que reclama ação mundial.





