Editorial
Dentre as múltiplas informações contidas no Informe sobre Desenvolvimento Humano-1997 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), apresentado na semana passada em San José, Costa Rica, existe uma particularmente ilustrativa da situação da miséria no mundo. Segundo o documento, os habitantes dos países em desenvolvimento sofrem mais com a falta de oportunidades do que com a falta de renda. Quer dizer, no cerne da questão não está a necessidade de medidas paternalistas ou de esmolas, mas de oportunidades reais. Os seres humanos, no Brasil como em qualquer país da África ou de outras regiões pobres, têm as mesmas aspirações e buscam apenas oportunidades para mudar seu próprio destino. Não se trata de pretender ficar à beira do caminho, pedindo ajuda, mas de conseguir trabalhar!
Trata-se de um dado que precisa ser levado em conta pelos governantes, tanto dos países pobres quanto dos ricos, ainda mais diante da atual realidade de interrelação mundial. A tão comentada globalização, que produz efeitos salutares para a vida de uma faixa da população, também precisa ser adequadamente conduzida para evitar seus efeitos negativos. Na verdade, esta tem sido a maior das discussões e até mesmo algumas mudanças políticas que vêm acontecendo na Europa são indicativas da reação de populações mais esclarecidas ante uma política global que acaba por criar dificuldades locais. E se existem problemas sérios em países desenvolvidos, como França e Inglaterra, é fácil perceber que nas nações pobres a situação é ainda mais grave.
Segundo o diretor regional do PNUD, com base no estudo, a pobreza pode ser eliminada no mundo; o que falta é vontade política. O que se necessita, portanto, é de uma mudança de mentalidade por parte dos que dirigem os destinos dos povos. Eles precisam perceber que só poderão atender aos imperativos de seu cargo caso atentem para a situação da miséria e aos caminhos para superá-la. Sem a adoção de políticas efetivamente concretas objetivando criar empregos, não haverá solução para o drama humano da pobreza que, conforme revelou o estudo do organismo da ONU, continua a representar o mais grave dos problemas que os seres humanos enfrentam. Há que se investir na produção, estimular os investimentos produtivos, criar alternativas para os mais pobres que não querem esmolas, mas reclamam oportunidades.
Vale assinalar, a propósito, que o trabalho das Nações Unidas reconhece uma alteração positiva na situação brasileira, revelando que a pobreza no país caiu para 20% da população. O estudo aponta, entre as causas disto, uma medida simples: o aumento real do salário mínimo que passou de 60 para 100 dólares, nos últimos anos. Só com isto - e esta situação é percebida naturalmente pela população - houve uma alteração significativa no quadro, com uma redução no total dos que vivem marginalizados. É oportuno observar que o citado aumento não foi um favor demagógico, mas fez parte de uma profunda mudança na própria conceituação sobre o trabalho e o salário.
Isto não significa que o problema brasileiro tenha sido resolvido, mas mostra o caminho: pagamento melhor e trabalho. Paralelamente, revelações sobre a complicada situação na Argentina, onde o desemprego atinge percentuais assustadores, serve para deixar clara a situação: apenas a solução de problemas econômicos (como ocorreu no vizinho país) não resolve o problema do povo. É preciso que haja sensibilidade por parte dos governantes no sentido de oferecer oportunidades à população. Ou seja, permitir que a iniciativa privada cresça e dê emprego a quem precisa.





