Editorial Escândalos e dúvidas Avolumam-se as denúncias, tanto no chamado escândalo AMA–Comurb, em Londrina, com acusações que atingem deputados estaduais, quanto no que tange à CPI do Narcotráfico, anunciando-se nova convocação do Secretário de Segurança do Paraná para depor, agora em Brasília, sem falar no verdadeiro tiroteio entre acusadores e acusados. Perplexa, a opinião pública segue tentando decifrar os meandros de tanta corrupção, de tamanhos abusos, sem conseguir entender, em sua plenitude, os motivos pelos quais não parece acontecer nada em relação aos envolvidos. Tudo mais parece uma complicada orquestração que mais complica do que explica. As múltiplas questões levantadas e não respondidas, em ambos os casos, dão uma impressão negativa, até porque ressurge a perspectiva de que tudo isto pode acabar dando em nada, como tantas vezes já aconteceu no Brasil. A idéia de que ‘tudo pode terminar em pizza’, expressão cunhada para evidenciar a falta de objetividade nas investigações mais sérias feitas nos últimos tempos no país, torna-se cada vez maior em face da aparente impossibilidade de se provar a efetiva culpa dos denunciados. No caso AMA–Comurb, sumiu muito dinheiro. Na questão relativa ao tráfico de drogas, as acusações envolvem policiais e delegados. Em ambos, há muitas revelações e pouco resultado. Novas investigações são anunciadas, antigas denúncias são apresentadas (caso do depoimento da sra. Lúcia Brandão, publicado ontem pela Folha), mas tudo se complica. Para cada acusação há uma negativa. Pressionado, o Secretário de Segurança Pública também sai atirando, ameaçando processar todos quantos o acusam. Sabe-se, como tem sido repetido, que qualquer pessoa pode lançar denúncias contra outra. Entretanto, existem leis que garantem a defesa dos infundadamente acusados. Por isso, quando são muitas as acusações e, adicionalmente, não se sabe de nenhuma punição dos denunciantes, tem-se a impressão de que alguma coisa real existe por baixo de toda esta situação. Ademais, quando uma série de acusações é feita, por várias pessoas, surge uma espécie de base que não pode ser desconsiderada. O mais sério em tudo é perceber que nem acontece nada contra os que acusam, nem contra os acusados. O dinheiro envolvido no escândalo de Londrina sumiu. Parece impossível que não haja como rastreá-lo e alcançar os beneficiários de toda a fraude. Ademais, é fora de dúvida que se tem, desde logo, alguns responsáveis que podem ser facilmente reconhecidos: os que detinham o poder de transferir os recursos, os que assinaram decisões ilegais, os que estavam à testa das autarquias envolvidas. Todavia, também em relação a tais elementos, nada aconteceu até agora. Uma das impressões que fica é a de que se procura empurrar a investigação indefinidamente, o que também serve para abrir espaço aos segmentos interessados apenas em dividendos políticos do escândalo e não exatamente no seu pleno esclarecimento. Isto é o que não pode acontecer. Como, igualmente, não se pode aceitar que tudo o que já foi levantado e denunciado pela CPI do Narcotráfico, no Paraná como no resto do país, possa ser arquivado ao fim de algum tempo. Vale a pena insistir na exigência de investigações profundas, que envolvam inclusive a quebra do sigilo dos policiais, delegados e até dos parentes denunciados junto à Comissão. Há meios legais para se chegar à verdade, para comprovar as acusações e, afinal, punir os culpados. Se isto não ocorrer, o descrédito contra a lei, a ordem e a Justiça será total.

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