Editorial Polícia sob suspeita A CPI do Narcotráfico veio, se foi e deixou mais dúvidas que certezas, mais temores que segurança. Houve denúncias sérias, prisões, o afastamento do delegado-geral da Polícia Civil, o que pode ser considerado um saldo positivo. Entretanto, é pouco diante mesmo de tudo o que foi posto aos olhos da população. O fato de ter havido até uma certa preocupação no sentido de poupar o secretário de Segurança do Estado, Cândido Martins de Oliveira, durante o depoimento que prestou à CPI, é preocupante. E a promessa do governador Jaime Lerner, feita pouco antes de iniciar mais uma viagem ao exterior, no sentido de que vai surgir uma ‘nova polícia’ no Paraná, não chega a ser tão animadora quanto poderia parecer. Do mesmo modo, as declarações do deputado Roque Zimmermann, o único representante paranaense na Comissão Parlamentar de Inquérito, indicando que agora ‘‘a população pode começar a respirar aliviada’’, parecem deslocadas diante dos fatos. Com efeito, após tantas revelações sobre o envolvimento da polícia no crime organizado, o povo – que já vinha se queixando da insegurança pública há muito tempo –, tem é de ficar mais assustado, até porque não se está percebendo que haja uma intenção real, uma ação efetiva, rápida e concreta no sentido de acabar mesmo com a corrupção policial. Ouvir o governador dizer, já quase no final do primeiro ano de seu segundo mandato, que agora vai fazer nascer uma nova polícia, produz mais revolta que alento. Saber que o titular da Segurança foi ‘prestigiado’, como ocorre com técnicos de times de futebol após séries de derrotas, para poupar o desgaste político, é apavorante. É um raciocínio tão óbvio que salta aos olhos: se existe uma situação de tal modo grave na polícia, como a que foi revelada durante os depoimentos à CPI do Narcotráfico, o principal responsável pela situação é o titular da Segurança Pública. Independente do que tenha feito ao longo de sua vida pública, de sua competência e até da honorabilidade pessoal, o secretário Cândido Martins de Oliveira é quem deveria ter o controle da situação. Se não sabe das barbaridades que delegados ou policiais cometem, é incompetente; se sabe, é conivente. Em qualquer caso, não tem hoje condições para dirigir um organismo que, segundo as evidências, está comprometido. Poupá-lo não é a melhor alternativa diante do que representa tudo o que está acontecendo. Na verdade, quem deve ser poupado é o povo. Ademais, trata-se no caso daquilo que é função efetivamente direta do governo, a segurança. E a população tem o direito de exigir que os organismos responsáveis por segurança cumpram sua missão e estejam acima de qualquer suspeita. Os corruptos têm de ser não apenas afastados, mas processados e punidos. Limpar a polícia não é uma questão política, é uma obrigação inadiável e que requer – para usar o jargão dos políticos – urgência urgentíssima. Não é difícil descobrir se um delegado ou policial é corrupto. Policial ganha pouco, o que talvez contribua para torná-lo alvo fácil da corrupção. E delegado da Polícia Civil também não tem vencimento tão elevado quanto se possa pensar. A simples observação do nível de vida de tais profissionais pode servir como indicador. E como há meios legais (entre os quais a quebra dos sigilos bancário e fiscal) para conhecer a situação real de cada um, é possível rastrear situações e descobrir, pelo menos, indícios. Mas é claro que para se fazer isto é preciso vontade de limpar a polícia, o que ainda não ficou muito evidente, apesar de tudo. A questão é que além das medidas concretas que tomou, a CPI deixou para trás um imenso rastro de denúncias no setor de segurança – e nenhuma polícia nova vai nascer no Paraná sem que cada um dos fatos seja duramente apurado e os responsáveis punidos. Para recuperar a credibilidade da Polícia Civil no Estado, o governo terá de fazer muito, e logo, sem subterfúgios, sem meias palavras.