Editorial Diferenças inaceitáveis Os líderes dos três Poderes chegaram a um entendimento a respeito do teto salarial do funcionalismo, depois de alguns debates. O teto será pouco inferior ao que pretendia o Poder Judiciário (que defendia o total de R$ 12.720), mas com uma série de brechas que permitem a continuidade da farra dos governantes sobre a miséria da maior parte da população. Com efeito, conforme o que foi acertado, o teto salarial será de R$ 11,5 mil por mês. Mas foram mantidos alguns privilégios, de tal modo que será autorizada a acumulação de uma aposentadoria de idêntico valor para os que já obtiveram esta vantagem, o que empurra o teto, para certos privilegiados, à casa dos R$ 23 mil. Com esta definição, deputados federais e senadores terão aumento imediato, com uma série imensa de vantagens. Tudo absolutamente legal, o que não é de modo algum surpreendente, até porque todo o tipo de benefício que é auto-outorgado pelos detentores do poder é sempre estabelecido em bases legais. E, naturalmente, a festa com o dinheiro do contribuinte não vai parar por aí. O efeito cascata vem em seguida, porque deputados estaduais e vereadores, que têm os vencimentos definidos em valores comparados, percentualmente, ao dos parlamentares federais, também devem se beneficiar. Somando-se a isto outras tantas vantagens, entre as quais a recente medida que concedeu auxílio-moradia aos membros do Judiciário, tem-se um imenso rombo adicional nas contas públicas, criado sobre as costas do povo, convertido na vítima dos abusos que continuam a ser cometidos com a maior desfaçatez pelos que deveriam cuidar dos interesses da população. Chega a causar pasmo perceber que os mesmos que se outorgam novos benefícios, como a fixação deste teto e o estabelecimento de uma série de vantagens adicionais, mostram total falta de sensibilidade em relação ao sofrimento e às dificuldades dos brasileiros. O debate, eivado de demagogia e falsidade, sobre a fixação do valor do novo mínimo, é bem típico. É inacreditável que seja tão fácil estabelecer um belíssimo reajuste aos deputados federais e senadores, com vantagens múltiplas, ao tempo em que se afirma ser impossível garantir ao trabalhador o mínimo capaz de assegurar uma vida digna. Sabe-se que existem implicações complexas em relação ao salário e que quando fixa o mínimo o governo está estabelecendo, inclusive, obrigações para o setor privado, enquanto que a definição relativa ao teto envolve apenas a administração pública. Também é plenamente conhecida a relação entre o mínimo e a Previdência, de vez que a maioria dos aposentados no país percebe exatamente o valor base. Assim, o aumento do mínimo estabelece uma alta nos gastos previdenciários. Por outro lado, não se pode esquecer também o déficit público, que vai se ampliar, e muito, com esta decisão relativa ao teto. Em um como em outro caso, há um rombo. O curioso (e também lamentável) é perceber que não há muito escrúpulo em aumentar o déficit quando se trata de garantir polpudos salários aos que governam, ao tempo em que se nota uma séria preocupação no momento de dar ao cidadão um ganho que representa a dignidade do trabalho. O brasileiro tem sido compelido a fazer sacrifícios diante das dificuldades há décadas. E atende a todos os apelos. Todavia, o que provoca uma cada vez maior insatisfação é perceber que continua a existir uma situação verdadeiramente inaceitável. De um lado, o povo, submetido a todo o tipo de sofrimento, com ganhos insuficientes, sem emprego, sem dignidade. Do outro, governantes cada vez mais privilegiados e insensíveis diante do drama da população que os sustenta. Uma realidade que ofende o próprio conceito de cidadania.