Editorial
O presidente Fernando Henrique Cardoso enfrenta um dilema político neste final de semestre: uma vez que as reformas estruturais continuam a passo de tartaruga, a idéia natural é convocar o Congresso extraordinariamente, em julho, mas a convocação extra custa muito caro aos cofres públicos e este é um forte argumento para a oposição bater. Claro que, diante da necessidade das reformas, se o mês de trabalho viesse a ser produtivo, o custo seria irrelevante. Mas, pelo que se vê desde a posse do atual presidente da República, é preciso ter uma dose muito grande de confiança para acreditar que agora, finalmente, o Congresso vai largar a carroça e andar de Fórmula-1.
O dilema é do tipo se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, pois a não-convocação joga as reformas mais para trás ainda, no tempo e no espaço, e a convocação não é garantia nenhuma de que alguma coisa será votada. A situação ainda é mais esdrúxula porque o Congresso não tem motivo para empurrar as reformas com a barriga. Ao contrário, tem todos os motivos para debatê-las já e votar e aprovar em curto prazo. Pois o mais recente anúncio sobre a inflação, pelo INPC de maio, indica um nível inacreditável de 0,11% ao mês. E perdurando o impasse político, o País perde tempo para se livrar de uma vez por todas dos juros altos e da política monetária recessiva imposta pelo déficit público e, mais recentemente, pelo déficit comercial.
Os números são efetivamente muito bons. A realidade atual, apesar do desemprego, aponta para estabilidade e crescimento. A população sente nos mercados e supermercados, nas lojas de confecções, nas de eletrodomésticos e até mesmo no setor de serviços uma efetiva estabilização. A única nota dissonante são os remédios de uso popular, mas já se anuncia a redução de seus preços e também das mensalidades das escolas e cursos superiores que andaram abusando da liberdade de preços.
Mas, sem uma efetiva mudança na estrutura do Estado brasileiro, a estabilização da economia corre riscos. E não só a economia fica em perigo, mas a estabilidade social também, pois o Estado deveria estar cuidando fundamentalmente da Saúde, da Educação, da Habitação, da Segurança, do Saneamento básico, das estradas. E o Estado não é nada eficiente nestas tarefas porque é deficitário em consequência de uma estrutura arcaica, pesada e cara.
Não há dúvidas - pelo menos junto à população - de que a estabilidade econômica é necessária e é um anseio nacional. Também é mais que sabido que sem a redução do tamanho do Estado, sem que se acabe com os déficits em todos os níveis, poderá ocorrer uma ruptura social com consequências impensáveis. Isto conduz à conclusão de que é preciso apressar as reformas. E o que deixa a sociedade perplexa é que o Congresso não se resolve a fazê-las. Sem dúvida, o presidente terá de arcar com a responsabilidade de convocar os congressistas, o que pode piorar ainda mais a imagem do Legislativo junto à população. Levando com ela, também, a imagem do presidente.





