Enfrentando a crise
A alta nos preços internacionais do petróleo, que passará a ser sentida mais diretamente pelos brasileiros a partir desta semana, com o já anunciado reajuste na gasolina e no diesel, deve causar muitos problemas em todo o mundo, Brasil incluído. Os atuais valores, os mais altos dos últimos dez anos – refletindo uma nova política de contenção de produção – naturalmente provocam reflexos sobre a economia em todo o mundo. O Brasil, que continua a ser um grande importador de petróleo, entre outras tantas dificuldades, poderá enfrentar também problemas em suas projeções relativas à balança comercial. Com efeito, a elevação nos valores do petróleo vai tornar ainda mais difícil a concretização da meta de se reverter um quadro de déficits continuados na balança comercial, uma das metas para que se possa retomar o processo de crescimento.
Esta situação pode, porém, se adequadamente enfrentada, produzir alguns efeitos positivos para o Brasil. Há 30 anos, o País enfrentou situação similar (e que, sem dúvida, foi muito pior porque à época os preços do petróleo quadruplicaram rapidamente e não havia sequer estrutura para enfrentar as consequências daquela situação) e teve condições de tirar dela importantes lições. Foi naquela ocasião que o Brasil começou a adotar uma forma diferente até de consumir derivados de petróleo. A política de racionalização do consumo, adotada como uma alternativa emergencial, resultou em modificações profundas nos hábitos e procedimentos da população, com resultados impressionantes.
Paralelamente, a adoção de alternativas para a energia produziu também importantes efeitos, entre os quais a política de utilização do álcool, a exploração mais adequada da energia elétrica e, também, a pesquisa de outras formas energéticas, inclusive a exploração da força solar e dos ventos. A volta dos preços do petróleo a patamares mais satisfatórios e as mudanças da conjuntura mundial acabaram por levar a uma redução do esforço pela busca de energias alternativas, o que poderá ser retomado agora.
Outra iniciativa adotada pelo País à época foi a da substituição das importações. Uma vez que era necessário usar muito mais divisas do que as previstas para importar petróleo, foi necessário reduzir as importações e se estabeleceu uma política de aumento na produção. Entre outras coisas, foi a partir daí que o Brasil passou a dar maior enfâse à triticultura, visando conseguir a auto-suficiência na produção do trigo, item que pesava, também, na pauta das importações. Com esta política, foi possível não apenas reduzir o impacto da alta do petróleo, mas se criou uma mentalidade de estímulo maior à produção, com a valorização da agricultura.
Esta elevação nos preços do petróleo pode, sem dúvida, propiciar a repetição daquele esforço e a realização, pelo Brasil, de uma decisiva retomada na luta para atingir a ainda não conquistada auto-suficiência energética, juntamente com um novo envolvimento no sentido de se dar maior apoio à produção, evitando importações desnecessárias e melhorando as condições internas. Há muito tempo reclama-se a adoção de uma política concreta e objetiva visando dar maior apoio à agricultura. Esta é uma das alternativas mais diretas para resolver uma série de problemas nacionais, inclusive o do emprego e o da alimentação da população. Se, em virtude da realidade que vai se processar diante da alta na conta de importação do petróleo, houver a retomada no investimento visando a melhoria da produção interna, então é certo que se poderá ter, de novo, um resultado bom diante de um problema que, à primeira vista, dá a impressão de ser um desafio insuperável.

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