O programa político do PMDB, apresentado quinta-feira em rede nacional de televisão, criou sérias dúvidas: o discurso ouvido foi o de um partido francamente de oposição, já antecipando até o lançamento de candidatura à presidência, embora falte mais de um ano para as eleições. O anúncio de candidatura própria à sucessão presidencial não chega a causar espanto, mesmo porque faz parte da própria vocação política o projeto de conquistar mandatos em disputa. Todavia, uma vez que o PMDB está intimamente ligado ao governo federal, ocupando ministérios e fazendo parte da bancada oficial no Legislativo, o discurso do tipo oposicionista, o anúncio de que a agremiação foi contra a privatização da Vale do Rio Doce, a garantia de que os seus parlamentares vão defender o ‘direito adquirido’ do funcionalismo público, tudo isto provoca dúvidas.
Esta dualidade política não é, sabe-se, atitude apenas de um partido. Entretanto, constitui, sem dúvida, um dos fatores mais concretos da enorme dificuldade que o próprio país tem em definir seus destinos. Pois o eleitor acaba sem saber exatamente qual sua opção. Isto sem lembrar que muitas vezes a escolha feita pelo eleitorado pode ser modificada através da troca, tão comum, que os políticos fazem em relação às suas legendas. Trocar de partido parece tão fácil quanto mudar de camisa. E quanto aos próprios partidos, modificar posições ao sabor de interesses momentâneos também dá a impressão de ser muito fácil.
Uma das justificativas dadas para a aprovação da emenda que permite a reeleição dos chefes de executivo foi precisamente sobre a imperiosa necessidade de uma reforma política. Não há dúvidas sobre a necessidade de uma alteração na estrutura da política nacional. Ocorre que, pelo visto, além da emenda da reeleição, mais nada deve acontecer em futuro próximo. Ninguém sequer discute, por exemplo, a fidelidade partidária, eventualmente uma das garantias para a efetiva manutenção da representatividade obtida pelo voto num sistema proporcional como o nosso. Fala-se muito do custo elevado das eleições, até como justificativa para a corrupção, mas ninguém sequer tenta aprofundar um debate a respeito de medidas que possam reduzir este peso. Políticos e partidos vagam ao sabor das ocorrências, anunciando posturas que podem agradar à maioria em dado momento, buscando apenas dividendos eleitorais sem a preocupação com a coerência ou os interesses mais efetivos do País e do povo.
Toda esta discrepância, entretanto, pode não ajudar como pensam alguns líderes partidários. O desencanto popular em relação aos políticos é algo que não poderia ser tão menosprezado assim pelos partidos. Esta é uma realidade que deveria merecer a maior preocupação dos políticos e dos líderes partidários por representar fator de desagregação capaz de afastar cada vez mais o eleitor da vida pública. Esta descrença acaba até por estimular idéias errôneas e dá força aos totalitários, que jamais desistem de seus objetivos de domínio sobre o povo. A perda de confiança do eleitor em seus representantes é um grande perigo para a democracia.
A evidente falta de sensibilidade dos políticos em relação a esta situação é muito preocupante. O Brasil emergiu há pouco tempo de um regime totalitário. Vive hoje, felizmente, situação de expectativa positiva, apesar das dificuldades, notadamente no aspecto econômico. Mas é preciso uma correspondência efetiva na ação política, o que implica em exigir dos homens públicos postura mais coerente e séria, fundamental para que se possa prosseguir no caminho do desenvolvimento com liberdade.

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