Editorial
Os números revelados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, no relatório de 1997, divulgado quarta-feira, a respeito da miséria em que vivem atualmente um bilhão e trezentos milhões de seres humanos, no mundo, não podem passar como mais uma informação sem consequências. Diante desta realidade, o trabalho destaca desde logo as responsabilidades dos dirigentes mundiais e a promessa de eliminar a pobreza que fizeram na cúpula mundial de Copenhague, em março de 95. E considera esta situação um fracasso indesculpável das políticas aplicadas por praticamente todos os países do mundo.
Os números falam por si: na Ásia, 950 milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia, enquanto 220 milhões enfrentam a mesma realidade na África. Nos países industrializados, os mais ricos, são 100 milhões de pessoas que vivem com menos de quatro dólares por dia. Na América Latina e Caribe, 110 milhões de pessoas vivem com menos de dois dólares diários. E para deixar bem evidente uma preocupação que vai além das cifras, o PNUD evoca a pobreza humana, já que no mundo há 1 bilhão de analfabetos, 160 milhões de crianças subnutridas e 110 milhões que não têm acesso à escola.
A agência da ONU informa que 20% das pessoas mais pobres do globo compartilham a mísera fração de 1,1% das receitas mundiais, contra 2,3% em 1960 e adverte que esta proporção continua caindo. Quando a economia mundial bateu os 25 trilhões de dólares, a proporção entre os mais ricos e os mais pobres passou de 30 por 1 em 1960 a 78 por 1 em 1994, diz o relatório. Assim, os dez maiores multimilionários do mundo detêm 133 bilhões de dólares, equivalente a 1,5 vezes a receita total dos países menos desenvolvidos.
Apesar de tudo, o PNUD enfatiza que a redução da miséria está perfeitamente ao nosso alcance, pois nos últimos 50 anos diminuiu mais rapidamente que nos últimos cinco séculos. Desde 1960, por exemplo, a mortalidade infantil caiu pela metade e a desnutrição baixou um terço. Para avançar nesse terreno, o organismo da ONU propõe programa que em primeiro lugar execute políticas centradas nas pessoas, modelando o contexto socioeconômico a favor delas. Recomenda também que é preciso trabalhar por uma verdadeira igualdade entre homens e mulheres, porque enquanto seus direitos forem desrespeitados, as mulheres continuarão fazendo parte da maioria de pobres. O PNUD também pediu que se incentive um crescimento a favor dos pobres, para que novamente o emprego seja uma prioridade maior da política econômica e então possam reduzir-se as desigualdades.
O PNUD calculou que a diminuição da pobreza custaria somente 80 bilhões de dólares, ou seja, menos que o patrimônio acumulado por sete das pessoas mais ricas do mundo ou o equivalente a 10% dos gastos militares mundiais de 1995, ou ainda, 1% das receitas mundiais. É uma questão de repensar as prioridades, segundo o documento.
É também um chamamento à verdadeira dívida social que os governos de praticamente todos os países do mundo têm em relação aos seus respectivos povos. Não se trata de reclamar políticas paternalistas ou demagógicas, que não resolvem, mas de insistir em uma orientação diferente que vise, como destaca o trabalho da ONU, o ser humano como agente e paciente de todo o processo de crescimento econômico. O desafio, como bem enfatiza aquele documento, não é tão impossível assim. Reclama, pura e simplesmente, vontade política por parte dos governantes e uma evolução maior na consciência dos povos a fim de que reclamem sua justa parte neste planeta.





