Contenção legislativa
A Assembléia Nacional da Coréia do Sul decidiu cortar em 10% o número de seus membros para diminuir custos, cedendo à pressão pública e antecipando-se às próximas eleições. A decisão foi tomada no final da última sessão do parlamento antes das eleições gerais marcadas para 13 de abril, quando o número de legisladores cairá de 299 para 273. Na oportunidade, 227 membros serão escolhidos por voto popular e os demais 46 assentos serão preenchidos por um sistema de representação proporcional. As decisões, relutantemente tomadas pelos legisladores da situação e da oposição, vieram depois de dois anos de negociações esporádicas. Os políticos sul-coreanos vêm sendo acusados de corrupção, rivalidades regionais e violações das leis eleitorais. Cerca de 12 membros da assembléia foram condenados por irregularidades desde as últimas eleições, quatro anos atrás. O governo afirma que o corte representará a economia de 7,6 bilhões de wons (US$ 6,6 milhões) por ano.
Esta decisão adotada pela Assembléia sul-coreana receberia o aval pleno em muitos países do mundo, Brasil incluído. Todavia, o risco de se pensar apenas em termos econômicos é grande. Não se pode, de modo algum, deixar de lado o papel e a importância, para um regime democrático, do Poder Legislativo. No momento em que se começa a atacar o Legislativo e a contestar sua existência, inclusive (e principalmente) por causa do seu custo, a própria democracia fica ameaçada. Não se pode jamais esquecer que é no Legislativo, ainda mais conforme a estrutura do governo em países como o Brasil, que se tem o mais importante corpo representativo do povo. Faz-se necessário repetir sempre que é nas casas legislativas que a opinião pública melhor se representa, inclusive porque fazem parte delas parlamentares da maioria e da minoria. Além de sua função de vigilância sobre o Executivo, o Legislativo é também o representante efetivo das minorias no exercício do Poder.
O fator custo não deve ser o principal na análise da importância e necessidade do Legislativo. Isto porém não significa uma omissão diante de posturas inconvenientes adotadas, com muita frequência, pelos políticos eleitos. Os privilégios que os parlamentares se outorgam, as vantagens que estabelecem para si, o empreguismo desenfreado, o nepotismo que parece não poder ser contido em nenhum dos níveis do Poder, os excessos todos enfim (o que inclui, sem dúvida, a corrupção que tantas vezes tem sido denunciada, outras tantas é comprovada e raramente é punida), tais coisas são, inegavelmente, inaceitáveis. O pior é que muitas destas práticas continuam a ser levadas em conta, sem qualquer contenção por parte de muitos políticos que sequer parecem perceber que tais atitudes acabam por atingir o próprio Poder que representam e, por extensão, a democracia.
Eventualmente, a questão do total de parlamentares federais, estaduais e até municipais, talvez não seja o mais importante. O Brasil com sua extensão continental e com mais de 160 milhões de habitantes precisa ter um número de representantes que de fato possa permitir que todos os segmentos da opinião pública sejam adequadamente contemplados. Entretanto, é fora de dúvida que está faltando na própria prática do Poder a transparência que se exige numa democracia. A população deve saber tudo sobre o que fazem, quanto ganham e como se comportam os seus representantes. Os abusos que vão desde vencimentos jamais revelados, passando por vantagens especiais na aposentadoria, facilidades sem conta, tais coisas precisam ser conhecidas, reveladas, analisadas e contidas. Isto é o mínimo que o povo pode exigir e é também o que os representantes do povo precisam fazer, até para defender adequadamente o Poder que ocupam.

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