Editorial
Os norte-americanos já descobriram o álcool carburante. E como nem poderia ser diferente, estão a toda produzindo automóveis, utilitários, microônibus e caminhões leves, todos movidos a álcool. Não se trata precisamente do sistema brasileiro, com álcool hidratado para queima pura, mas da mistura carburante, um pouco diferente da que se usa aqui: 85% de álcool e 15% de gasolina. Além disto, os Estados Unidos anunciam que pretendem usar também o esquema da mistura que já é adotado no Brasil, adicionando 5% de álcool na gasolina comum.
A descoberta norte-americana do chamado combustível renovável ocorre em função de fatores vitais. Primeiro, a necessidade ambiental e a preocupação com a poluição provocada pelos carros a gasolina no mundo todo e, especialmente, no país que mais veículos possui. Segundo, a constatação de que efetivamente o petróleo deve terminar um dia. Conclusões que, nem seria preciso relembrar, já haviam sido percebidas no Brasil. Como de hábito, porém, enquanto os norte-americanos mergulham com toda sua garra no novo projeto, o Brasil aparentemente não se interessa em manter o que já fez e ameaça lançar por terra todas as conquistas obtidas, perdendo de novo excelente oportunidade de conquistar posição firme no mercado que pode representar o futuro, o da energia renovável.
No Brasil, o programa de álcool surgiu em uma emergência, provocada pelo primeiro choque de petróleo, que encontrou os países importadores em situação muito delicada. Importando mais da metade do petróleo que consumia e tendo de pagar quatro vezes mais pelo barril, o Brasil - como outros países na mesma situação -, mergulhou em profunda crise. Isto ocorreu precisamente na época em que o país parecia estar emergindo de anos de atraso, partindo decisivamente no rumo do desenvolvimento. O choque derrubou expectativas e criou situação complicada.
Como muitas vezes acontece na vida, o que era um problema poderia ter-se transformado em solução. O Brasil enveredou por caminhos alternativos, passou a investir mais na prospecção de petróleo, construiu mais usinas hidrelétricas e encontrou o álcool, iniciando um processo revolucionário na produção do combustível renovável. Houve imensas dificuldades para desenvolver o álcool como combustível, no começo as coisas foram complicadas, mas aos poucos criou-se uma tecnologia nacional de grandes resultados. Infelizmente, porém, na medida em que se localizavam reservas nacionais de petróleo, e em que os preços do produto se estabilizavam, o álcool foi deixado de lado, perdendo-se com isto grande trabalho já realizado.
O que se espera é que esta atenção que os norte-americanos estão dando ao álcool como alternativa energética possa despertar os brasileiros para o que estão jogando fora. O álcool representa uma saída que vai além da questão ecológica. Constitui também efetivo suporte econômico, abre perspectivas imensas para a agroindústria, cria possibilidades em vários setores, ainda mais porque, como se observa nos Estados Unidos, o enfoque não é dado apenas à cana-de-açúcar, mas também ao milho. Quer dizer, há numerosas alternativas que acabam sempre no mesmo ponto: o campo. E que indicam com clareza o caminho a se seguir com vistas à efetiva solução do problema da dependência energética. Está tudo aqui, as possibilidades são amplas, o caminho se abre oferecendo soluções para muitos dos problemas do País. Resta que haja visão para aproveitar todas estas oportunidades.





