Editorial
Novos desafios da saúde
As transformações ocorridas no mundo, nos últimos 100 anos, foram verdadeiramente impressionantes. A única coisa que mudou pouco, no período, foi precisamente o ser humano. É certo que houve algumas transformações também em relação à saúde, atualmente a perspectiva de vida é bem superior à de há um século, alguns impressionantes avanços da medicina tornaram possível vencer doenças das mais sérias. Todavia, no limiar do novo milênio, percebe-se que alguns males, que se supunha erradicados, voltam a abalar a sociedade humana, produzindo também dúvidas sobre a tão decantada inteligência deste que se autodenomina rei da criação que vivencia verdadeiros paradoxos: ao mesmo tempo em que consegue conquistar o cosmos, enfrenta a morte em face de males como a febre amarela ou mesmo a gripe.
Não é muito difícil, entretanto, perceber a razão maior desta situação, revela análise de especialistas. Conforme a opinião da infectologista Dayse de Pauli, publicada na edição de ontem do jornal, em ampla reportagem, a falta de saneamento básico e a deficiência na educação representam causas efetivas para esta realidade. Estes fatores e, também, notadamente no Brasil, a falta de seriedade por parte dos organismos públicos, em especial o Ministério da Saúde, representam elemento fundamental para que males como febre amarela, cólera, dengue, tuberculose, gripe e outros males que assolam a humanidade desde os primórdios da civilização continuem a alarmar e a vitimar ponderável parcela da população.
Esta realidade, tanto no Brasil quanto no mundo, evidencia, fundamentalmente, uma falta de respeito em relação à vida humana. Ponderar que isto é uma consequência desta era de tecnologia em que as atenções (e investimentos) se voltam mais para aqueles aspectos da evolução é parte apenas da questão. O que existe de modo claro é uma falta de interesse pela situação do ser humano, notadamente nas regiões mais povoadas e, curiosamente, mais pobres o que faz com que doenças que poderiam ser vencidas continuem a ocorrer. E tudo isto sendo aceito com um fatalismo que é inconcebível pela própria História do ser humano. Afinal, o engenho que fez o homem voar, alcançar outros astros celestes, superar os maiores obstáculos já enfrentados, poderia ser usado para superar males tão simples quanto varíola, cólera e tantos outros.
Falta vontade, principalmente, para modificar esta situação. E isto é inconcebível aqui como em qualquer parte. Falta uma efetiva disposição para oferecer amparo pleno a entidades como a Organização Mundial de Saúde, em termos mundiais. Quanto ao Brasil, o que se tem percebido é uma incrível disposição do Ministério da Saúde em divulgar feitos, enquanto os índices de doenças que poderiam ser evitadas ou até erradicadas (como a cólera, que depende apenas de água limpa, isto é, de saneamento básico) continua a crescer.
Neste, como em outros fatores, é imprescindível que haja uma mobilização mais ampla da sociedade. Infelizmente, mantém-se ainda em relação à doença uma certa indisposição de luta. Há um certo alheamento diante da questão, como se o problema fosse apenas dos doentes ou de seus familiares. As enormes filas nos hospitais, as dificuldades dos médicos, enfermeiros, de todo o pessoal de saúde, em atender ao volume imenso dos que os procuram, esta é uma situação que persiste, principalmente, porque falta uma percepção mais ampla sobre o direito de cidadania na exigência, também, de atendimento à saúde, o que inclui medidas para conter e superar males que voltam a assolar a humanidade.





