Golpe na democracia
O presidente do Peru, Alberto Fujimori, que em 5 de abril de 1992, com o respaldo das forças armadas, consumou um ‘‘autogolpe’’ de Estado, fechando o Congresso, reorganizando o Poder Judiciário e estabelecendo um regime pretensamente constitucional, aproveitou o final do ano passado para anunciar uma nova ‘‘candidatura’’ à presidência. Ele pretende conquistar um terceiro mandato consecutivo nas eleições previstas para o mês de abril. O anúncio gerou reações dos principais candidatos independentes e de setores da oposição, que advertiram que a provável permanência de Fujimori, que poderia completar quinze anos no poder, abriria uma etapa de insegurança e confronto político, de graves repercussões para o país.
A decisão de Fujimori provocou durante a semana reação maior, agora por parte de trabalhadores e estudantes, além de políticos, que se dirigiram ao palácio do governo para protestar contra esta iniciativa. Nas cidades do interior do país houve manifestações similares. Os manifestantes da capital, em sua maioria convocados pela Confederação Geral de Trabalhadores do Peru, queimaram um boneco em tamanho natural com o rosto de Fujimori e um caixão negro com a inscrição ‘‘a Constituição está morta’’. Na cidade de Arequipa, cerca de 1.500 pessoas fizeram uma marcha pacífica pelas ruas e queimaram um boneco representando o FMI. Em Cusco, mais de mil manifestantes foram para a praça maior, atendendo à convocação de partidos políticos e entidades profissionais. Na cidade de Huancayo, centenas de jovens se reuniram na praça principal para também queimar um boneco e um caixão que simbolizavam o governo. Na cidade de Iquitos, na Amazônia, cuja população é, em sua maioria, antifujimorista, uma multidão que ocupava dez quarteirões, marchou para a praça principal. Segundo pesquisas, Fujimori tem a preferência de 40% a 42% do eleitorado.
A tentativa do presidente peruano de se manter no poder por mais 4 anos não surpreende. Eleito democratimente, Fujimori derrubou as instituições, sob a antiga (e ainda usada) alegação segundo a qual o Legislativo e o Judiciário atrapalhavam a ação governativa. É um argumento repetido por todos os pretendentes a ditador que acabou funcionando. Apesar de tudo o presidente peruano não foi marginalizado como outros golpistas do continente, em tempos recentes. E até por isto, ele conseguiu um novo mandato. Agora, tenta mais um. Este é um dos problemas quando o personalismo substitui o senso nacional. Fujimori deu a partida, na América do Sul, e já teve seguidores, entre os quais Carlos Menem, na Argentina, e Fernando Henrique Cardoso, no Brasil. Presidentes eleitos, de repente, se consideram os únicos capazes de conduzir o ‘‘rebanho’’ e agem como os antigos reis absolutistas que entendiam ser escolhidos por Deus.
Carlos Menem bem que tentou manter-se no cargo, mas foi apeado pela lei e pelo povo. Isto, sem dúvida, pode refletir sobre o Brasil: seguramente, FHC não terá força para mudar outra vez a Constituição e manter-se no cargo. Por aqui o golpe pode ser outro, como a tentativa de se implantar o parlamentarismo, tendo o messiânico FHC como primeiro-ministro. Seja como for, o que vier a ocorrer no Peru pode redefinir o quadro latino-americano. Fujimori mostra sua face e enfrenta a reação de ponderável parcela da população. Se, porém, conseguir – usando os meios que todo o pretenso messias-presidente pode usar – mais um mandato, o próprio e frágil arcabouço da democracia na América do Sul, já abalado com o que aconteceu na Venezuela, corre perigo, outra vez.