Editorial
No primeiro ano da Era Cristã havia em todo o planeta 200 milhões de habitantes. Este total levou mais de mil anos para se duplicar, chegando a 500 milhões no século 16. O primeiro bilhão foi contado em 1850; cem anos depois, já havia 5,5 bilhões de pessoas no mundo. Estes números estão sendo divulgados hoje como parte do alerta que se faz a respeito da situação da vida na Terra neste 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente. O crescimento populacional do planeta, entretanto, é apenas um dos problemas que afligem o planeta. Outra, tão importante quanto esta, é que os recursos naturais são, por definição, finitos. Em outras palavras, há um limite para tudo e este limite o mundo ainda faz de conta que não existe.
Segundo os especialistas, atualmente o ser humano consome 35 vezes mais água do que há três séculos. A agricultura absorve 60% do consumo, a indústria mais 25%. Até o final do século, conforme projeções bem fundamentadas, o consumo industrial de água pode dobrar. E a previsão é de uma escassez de proporções críticas capaz de gerar conflitos muito mais graves que os vividos pela humanidade ao longo de sua História.
Desde que surgiu na Terra, o ser humano tem aproveitado, explorado e destruído boa parte do planeta que habita, agindo como se tudo o que aqui existe fosse infinito. Nos primeiros milênios isto não teve importância, até porque o homem era presença quase insignificante sobre a crosta terrestre. Paralelamente, o próprio meio se incumbia de fazer a reposição dos estragos - pois tinha tempo para isso -, realizando-se o ciclo natural da vida.
Mas, quando a humanidade passou a desenvolver tecnologias exploratórias mais sofisticadas e eficientes, as coisas começaram a mudar. A própria espécie cresceu, à medida que as técnicas de cura se aprimoraram e as doenças foram combatidas com sucesso cada vez maior. O homem passou a ocupar cada vez mais espaço na Terra e sua expectativa de vida aumentou. Só uma coisa não mudou: ele continuou agindo como se tudo na terra fosse infinito.
Só muito recentemente é que começou a surgir a consciência sobre a finitude dos bens disponíveis, a possibilidade de o ser humano acabar se afogando no lixo que vem produzindo, destruindo-se junto com o seu habitat. Um processo que, aliás, ainda não parece ter sido suficientemente assimilado, o que explica a verdadeira luta que os pequenos grupos de pessoas ligadas ao problema têm que desenvolver para defender este meio ambiente cada vez mais ameaçado. E os estudos mostram que o problema adquiriu uma dimensão tal que a questão, hoje, é de sobrevivência do planeta e da humanidade.
Hoje os homens precisam usar a mesma inteligência com a qual venceram as trevas do passado para superar as trevas do presente. Não se trata, apenas, das previsões de escassez da água e até do oxigênio do ar, ou da energia e dos alimentos. Pois também há escassez de empregos - que grassa em todo o mundo e é consequência tanto do desenvolvimento tecnológico como do crescimento populacional e do aumento da vida útil do ser humano. Há falta de moradias, falta de dinheiro para a maioria e falta de saúde e instrução em amplas áreas do mundo. Também há falta de segurança física nas grandes e médias cidades. Se não conseguir resolver estes problemas, agora, a situação mundial vai se agravar em menos tempo até do que supõem os ecologistas mais pessimistas.
Todo o engenho que usou para superar obstáculos aparentemente invencíveis em sua História, a humanidade terá de mobilizar para vencer os novos e mais sérios desafios que se antepõem à aventura humana na Terra. A conscientização sobre o problema é um passo importante, sem dúvida. É, porém, apenas o começo. Se não houver já uma plena mobilização para se equacionar soluções, com medidas profundas, as dificuldades que a humanidade vai enfrentar nas próximas décadas talvez possam se revelar, pela primeira vez, insuperáveis.





