Como havia acontecido há algum tempo na Grã-Bretanha, o eleitorado francês também acabou dando aos seus governantes um recado curto e grosso. A derrota do situacionismo na França repete o que aconteceu pouco antes no seu vizinho insular e deixa evidente a reação do povo quando, por qualquer motivo, não concorda com os que vinham governando. Na França, ademais, aconteceu algo muito significativo: o governo tinha maioria destacada na Assembléia Nacional e as novas eleições deveriam ocorrer apenas dentro de 10 meses. Daí, o presidente da República, Jacques Chirac, querendo se mostrar muito esperto, dissolveu a Assembléia e convocou novas eleições, certo de que ampliaria sua vantagem. Mostrou, entre outras coisas, um distanciamento em relação ao povo e deixou claro que, apenas dois anos após ser eleito presidente, não estava mais sintonizado com o eleitorado.
Lá como cá, ao que parece, o exercício do poder acaba por afastar o representante do povo. Qualquer observador perceberia a insatisfação latente no país, que se evidenciou com uma série de manifestações, protestos e greves, ocorridos ao longo dos últimos meses. O povo deixava claro que não estava aceitando a política de sacrifícios que o governo havia adotado, exigindo mudanças. Como não foi ouvido, acabou respondendo do único modo possível, nas eleições. Sorte dos franceses, no caso, que puderam antecipar seu descontentamento, apeando do poder os direitistas e voltando à opção socialista.
Na verdade, o que aconteceu na França não foi, como alguns poderiam pensar, um retorno à esquerda por parte do eleitorado. O que ocorreu foi uma reação simples da maioria contra o governo devido a atitudes que estavam provocando imensas dificuldades ao povo. É possível, inclusive, perceber ali o resultado de uma oposição nacional ao projeto de unificação que se tenta desenvolver no Continente europeu. Os sacrifícios estabelecidos como fundamentais para que a economia francesa atinja os contornos necessários à integração foram considerados excessivos para o povo.
Em parte, isto também ocorreu no pleito britânico. E a lição primeira que estas decisões populares indicam é a de que a principal preocupação de um governo há de ser com o bem-estar de seu povo. Naturalmente, pode-se ponderar que, a médio ou longo prazo, a unificação européia produzirá excelentes efeitos para toda a população do Continente. Ocorre que há uma realidade imediata que não pode ser esquecida pelos governantes. Claro que o exercício do governo implica em se antecipar problemas e em pensar em termos de futuro, com planos que vão além dos problemas imediatos. Entretanto, quando um governo se esquece do seu povo, de suas necessidades, de seus reclamos, a desculpa de que está ‘pensando nas próximas gerações’ cai no vazio.
Os franceses informaram, pelo voto, ao seu presidente (que agora terá de governar com a oposição, majoritária na Assembléia), sua insatisfação com a situação atual e até com as projeções futuras. A falha de Jacques Chirac foi, sem dúvida, o alheamento em relação aos anseios e, principalmente, ansiedades da população. Uma falha, inegavelmente, fatal no regime democrático.
Mais uma lição que deveria ser assimilada não apenas pelos dirigentes franceses, mas pelos outros, que também parecem esquecidos da origem de seu poder, seguindo rumos diferentes dos desejados pelo povo. No caso específico brasileiro, percebe-se que Brasília dá a impressão de ficar muito isolada do Brasil e de seu povo. Isto pode custar caro aos que hoje ocupam os postos de mando e esquecem quem é o verdadeiro dono do poder.

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