Editorial
Os dados divulgados pela pesquisa feita pelo Ibope na região metropolitana de São Paulo, que revelam uma melhoria no nível de renda da população mais pobre, são muito valiosos na medida em que confirmam uma situação que pode ser percebida em quase todo o País, pela simples observação. Com efeito, desde que se implantou o plano de estabilização e principalmente a partir do advento do real, foi possível perceber uma alteração no quadro daquela chamada faixa que vivia na linha de maior pobreza.
Os números do trabalho não demonstram, contudo, que tudo esteja no melhor dos mundos. Na verdade, conforme a pesquisa, em 1994, na Grande São Paulo, a faixa de população das chamadas classes D e E, as mais pobres, respondia por 39% do total. Em janeiro deste ano, o percentual que figura nas referidas faixas baixou para 27%. Isto significa que uma parcela da população melhorou as condições de vida. Mas deixa claro que existe significativo número de brasileiros vivendo ainda em condições muito precárias, espelhando, desde logo, que muita coisa terá de ser feita para que a população brasileira melhore efetivamente de modo geral suas condições de vida.
O que há a destacar, porém, é o fato claro de que o Brasil está hoje em um caminho diferente daquele que trilhava até o lançamento do programa de estabilização. É importante rememorar sempre o caos existente e a trágica escalada da miséria que se processava antes que houvesse a reversão possibilitada pelo atual plano econômico. Não apenas o País mergulhava cada vez mais no fosso da anarquia econômica como, até em resultado disto, se ampliava a cada passo a distância entre os mais ricos e os cada vez mais miseráveis. Este é, aliás, um quadro típico de economias desestruturadas, quando os que possuem muito conseguem não só defender os seus bens, como se beneficiam da situação, enquanto os pobres estão perdendo cada vez mais.
O plano de estabilização modificou rapidamente a situação ao conter a inflação e propiciar uma situação diferente para todo o panorama econômico. A moeda estável se valorizou por si, pelo simples fato de ter acabado a desvalorização quase diária, com a inflação galopante da época anterior. Esta simples mudança melhorou a situação dos mais pobres, ao valorizar seu pouco dinheiro. Na esteira desta melhoria, começou a funcionar a ciranda positiva do consumo: na medida em que os mais carentes ganhavam condição melhor, entravam também no mercado consumidor, com todos os efeitos positivos disto decorrentes.
Como havia, porém, toda uma estrutura formada em função da própria situação, esta melhoria nas condições de parte dos mais pobres pressionou os segmentos da produção, obrigando a adoção de medidas de controle, entre as quais a abertura nas importações para evitar que a demanda maior provocasse nova onda inflacionária. Houve também um desequilíbrio, na medida em que o mercado também não tinha condições de absorver uma nova leva de trabalhadores em potencial.
O desafio do momento, então, é este: atingir ainda mais aquela faixa da pobreza que persiste, o que implica em se manter a estabilidade ao tempo em que se precisa criar novos mercados de trabalho para esta população emergente. Esta tarefa é, sem dúvida, muito complexa, mas revela-se plenamente possível, a partir mesmo dos resultados já obtidos. A grande virada conseguida pelo Brasil, a partir de 94, mostra isto. Como deixa também bastante evidente que é preciso continuar neste caminho.





