Editorial
No Dia Mundial sem Tabaco, celebrado ontem, a Organização Mundial de Saúde insistiu na importância de se dar a maior ênfase aos malefícios que o cigarro provoca. São dados e números efetivamente tremendos, assustadores mesmo, forçando desde logo uma questão: qual será o defeito do ser humano que insiste em manter vícios tão destrutivos à saúde como este? É uma pergunta muito complicada, ainda mais quando se sabe que os vícios fazem parte da vida e da história da raça humana desde os primórdios da civilização. Adicionalmente, ao lado dos malefícios reais causados à saúde, há a exploração do vício, igualmente institucionalizada.
Veja-se o caso do cigarro, em destaque por causa da campanha da OMS. Os dados relativos aos males à saúde apavoram. E apresentam ainda um fator paralelo muito relevante: o vício de fumar acaba prejudicando quem não fuma, submetido à fumaça dos cigarros. Diante de tal quadro, a idéia aparentemente lógica seria a de se proscrever este vício, que tanto mal produz à humanidade. Já aí, porém, começam as dificuldades. Tentar acabar com um vício com o aparentemente simples meio de proibi-lo tem-se revelado um meio não só ineficaz, mas também constitui um modo muito objetivo de estimular a marginalidade.
Há um exemplo não muito recente, mas ainda presente: nos anos 30, o governo dos Estados Unidos resolveu proibir o álcool, criando a famosa lei seca. O resultado foi desastroso: criou-se à época um dos maiores e mais sanguinários esquemas criminosos naquele país. Não caiu o consumo do álcool, enquanto o crime florescia, a violência se tornava tremenda e a própria sociedade se corrompia com a ação dos criminosos que dominaram o mercado ilegal. Para complicar, a decisão norte-americana revelou-se mais falha porque foi tomada unilateralmente: só naquele país o álcool era proibido. Logo, apareceram os empreendimentos nos países vizinhos, ligados à indústria. E no final, o governo teve de acabar com uma lei que, apesar de todas as suas boas intenções, não resolveu o problema.
Ao lado do aspecto puramente legal há também o econômico. Com efeito, só no Brasil 2 milhões e meio de pessoas trabalham na agricultura, com o tabaco. Os números relativos à indústria são ainda maiores. Mas o maior beneficiário do vício, e não só do cigarro mas também de outro terrrível mal, o álcool, é o governo, que arrecada com os impostos sobre tais itens uma parte enorme de sua receita. Proibir o cigarro, ou o álcool, não apenas criaria situação complicada em relação aos viciados, mas tiraria ao governo uma grande fonte de renda. E embora seja ponderável a afirmativa dos antitabagistas em relação ao fato de que o prejuízo que o vício causa é maior que a arrecadação que produz, o certo é que a sociedade está, literalmente, viciada. E acabar com isto é tarefa bem mais complicada do que possa parecer.
Quando se recorda que um dos maiores desafios que a sociedade civilizada enfrenta é o dos cartéis de droga, que movimentam bilhões de dólares, corrompem esquemas de segurança pelo mundo, matam a quem não pode comprar e chegam a ser acusados de manipular até eleições em alguns países, percebe-se como é forte o tentáculo dos vícios. O cigarro, como o álcool, são drogas legais. E os outros, tão ou mais perniciosos pelos efeitos deletérios que provocam na sociedade. A OMS, com sua campanha contra o cigarro, ajuda a esclarecer a população. Mas é pouco diante da força do vício que domina o mundo e que só poderá ser enfrentado mediante uma radical transformação nos hábitos de todos, a começar pelos próprios governos.





