Há mais de cem anos, o então presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln afirmava que nenhum país poderia superar as dificuldades do desenvolvimento sem contar com uma poupança interna forte. Seu pronunciamento era bem taxativo ao enfatizar que ‘‘nenhuma nação progredirá com base em empréstimos externos’’. A lição, certamente bem captada pelos EUA, que se converteram numa das maiores potências econômicas do mundo, precisamente tendo como base o trabalho firme e uma poupança interna forte, ainda não foi suficientemente aprendida pela América Latina. Conforme enfatiza o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, em artigo publicado no jornal ‘El Pais’, ‘‘os países da América Latina precisam aumentar a poupança interna para assegurar um crescimento que permita vencer a miséria, o desemprego e competir nos mercados internacionais’’.
‘‘Com o nível de poupança atual, que é de 18% do PIB (Produto Interno Bruto) - comparado com os 28% do Chile e mais de 30% dos países do leste asiático -, os países da região não poderão ter um crescimento que lhes permita vencer a miséria e o desemprego e competir internacionalmente’’, diz o economista uruguaio. Ele acredita que para aumentar a poupança interna e o fluxo de investimentos estrangeiros na produção, os países da região ‘‘devem oferecer estabilidade jurídica e política a longo prazo’’. O presidente do BID diz também que as reformas econômicas iniciadas pelos países latino-americanos depois dos anos 80 começam a dar resultados agora, mas que ‘‘hoje mais do que nunca é preciso avançar na reforma do Estado’’.
Iglesias acredita também que melhorou substancialmente a gerência macroeconômica e a saúde fiscal e que se caminha para a melhora da capacidade do Estado, para que execute eficientemente sua função, em saúde, educação, meio ambiente e regulação da concorrência. ‘‘Mas a região precisa consolidar o Estado de direito, ou seja, a democracia. A construção democrática em alguns casos e a consolidação em outros é a agenda pendente da reforma do Estado na América Latina’’, assegura o presidente do BID.
Consolidação da democracia, através da reforma do Estado, e fortalecimento da economia, pelo aumento da poupança interna. São duas bases sem as quais o próprio processo de mudanças que vem ocorrendo no continente corre risco. Reclama-se, com razão, a falta de apoio externo, como o que foi dado, por exemplo, pelos Estados Unidos à Europa Ocidental. Entretanto, é inegável que houve ali a contrapartida do esforço humano, a realização de um trabalho político de base, que consolidou a democracia enquanto o povo realizou sua parte, trabalhando e criando condições internas para corresponder ao esforço externo.
Por aqui, a reforma do Estado continua quase parada, enfrentando o clientelismo de alguns, a demagogia de outros e, principalmente, o interesse pessoal dos que insistem em se beneficiar do dinheiro público, sem vergonha e sem medo. Também por isto, o esforço que se faz no meio privado, visando melhorar a situação econômica, se torna ainda mais difícil. Já houve mudanças ponderáveis no que tange ao modo de se observar o trabalho e o salário. Mas faltam ainda medidas concretas para estimular um e outro e para criar uma verdadeira e forte filosofia de poupança, o que não apenas serve para fortalecer o potencial nacional, mas dá ao cidadão uma situação mais sólida e uma vida melhor. O Brasil continua, porém, perdendo tempo precioso com discussões estéreis e escândalos não solucionados, com o que continua inseguro, antevendo futuro brilhante e não conseguindo concretizá-lo.

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