Editorial
Com justificadas festividades, comemorou-se ontem em Haia o cinquentenário do lançamento do Plano Marshall, um inédito programa lançado em 1947 pelos Estados Unidos para ajudar os países da Europa, praticamente destroçados pela 2ª Guerra Mundial. Foi a primeira vez na História da Humanidade que o vencedor de uma guerra usou recursos para ajudar não apenas as vítimas, mas também os inimigos, concretizando com isto um processo de reconstrução que de outro modo seria mais demorado e infinitamente pior.
Comemorando a data, o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, propôs que os Estados Unidos e a Europa completem a nobre viagem iniciada pela geração de George Marshall, desta vez sem deixar ninguém excluído. Com isto, o líder norte-americano lembrava também que o inusitado programa deixou de lado muita gente. No caso específico, os países da Europa Oriental foram excluídos e isto, conforme os analistas, ajudou a forjar o espírito da guerra fria, tanto por ter permitido que a União Soviética assumisse o papel de única protetora e amiga daquelas nações, como por criar uma divisão real entre os dois lados. Assim, o que o sr. Clinton sugere é que agora, 50 anos depois do lançamento do Plano, haja novo esforço visando ajudar precisamente aqueles países da Europa Oriental, antes excluídos, e que vivem hoje uma realidade muito dramática.
A grande maioria da população pouco sabe da 2ª Guerra Mundial, suas causas ou seus efeitos. Entretanto, é importante relembrar que ao seu final, a Europa estava praticamente destruída. Meio século depois, a realidade é bem diferente. A Alemanha, derrotada, dividida, completamente arrasada, é de novo uma potência mundial. A França, a Holanda, a Itália, todos os países da Europa Ocidental pagaram um preço enorme àquele terrível confronto e, hoje, vivem uma situação fantástica, em comparação, por exemplo, com os países da América Latina, que jamais foram tão agredidos.
Considerar que isto foi possível em função da coragem, da disposição, da garra de seus respectivos povos, é perceber apenas parte da verdade. Os US$ 13 bilhões que os Estados Unidos despejaram sobre a Europa, equivalentes hoje a US$ 88 bilhões, como bem lembrou durante a solenidade em Haia o presidente Clinton, tiveram importante parcela de responsabilidade sobre este renascimento. Não por outro motivo, nos anos 50, quando dólares norte-americanos eram jogados sobre a Europa, países aliados da luta contra o fascismo, como o Brasil, bem pediram um Plano Marshall para a América Latina. Mas, como se sabe, jamais foram atendidos.
O que preocupa hoje é justamente o fato de que, ao comemorar o cinquentenário de um programa que, de fato, ajudou na reconstrução da Europa, o presidente dos Estados Unidos conclame os seus aliados a um esforço similar, para recuperar os países da Europa Oriental. Uma vez mais, o foco do grande vizinho do Norte se volta para o outro lado do Oceano. Não deixa de ser curioso perceber que quando viaja pela América, como fez recentemente, Clinton fala muito em mercado livre, em abertura, mas pouco em oferecer qualquer tipo de contrapartida aos países do Continente. Na Europa, o discurso é outro.
Desde a queda do Muro de Berlim, as instituições financeiras internacionais já canalizaram para as novas democracias do Leste Europeu cerca de US$ 95 bilhões, segundo Clinton. Apenas uma parte disto seria mais que suficiente para dar um enorme impulso à América Latina, que sem dúvida também precisa e merece apoio para as suas incipientes democracias.





