Não passa pela cabeça de nenhum trabalhador brasileiro enforcar a semana de trabalho porque tem um feriado em plena quinta-feira.5 A maioria sequer cogita de esticar o fim da semana, folgando na sexta-feira. Afinal, os tempos estão bicudos, emprego não se encontra com facilidade e o negócio é levar a sério o batente, para não ficar na rua. Isto, infelizmente, não se aplica aos empregados mais bem remunerados do País, os membros do Congresso Nacional, que como já haviam feito no final do mês passado (quando o 1º de maio, feriado, coincidiu com a quinta-feira), repetiram a dose agora, esticando o feriado de Corpus Christi. Funcionários de todos os brasileiros, deputados federais e senadores, com salários, vantagens e muitos outros benefícios sequer suspeitados pela população, descansam mais uma semana, sem mostrar qualquer pudor, como se houvessem cumprido bem todas as suas obrigações.
O mais curioso nesta verdadeira irresponsabilidade é a informação segundo a qual os presidentes da Câmara Federal e do Senado (que foram à Europa participar de um conclave político) pretendem se reunir na próxima semana para lançar uma campanha de recuperação da imagem do Congresso. Com mais esta semana de folga, terão assunto adicional de conversa, embora, para sorte dos brasileiros, não haja mais, até o Natal, feriadões como os de amanhã. Fato que, entretanto, não muda em muito as coisas no mundo político porque o calendário do Poder Legislativo é muito favorável com férias no meio do outro período de recesso, que vai de dezembro a fevereiro, além de outros períodos de repouso que os representantes do povo conseguem produzir sempre. No particular, mostram bem mais imaginação do que no capítulo referente a seu trabalho.
O mais frustrante em tudo isto é saber que este ano deveria ser o da redenção do Congresso, após os dois anos praticamente perdidos da atual Legislatura. As esperanças suscitadas com as eleições, principalmente em relação às reformas estruturais reclamadas pelo já então bem-sucedido programa de estabilização, se frustraram com as negaças, os conchavos e negociatas, que acabaram por obstar as principais mudanças. Ficou tudo para o segundo ano de mandato. Mas, daí, por se tratar de ‘ano eleitoral’, uma vez mais houve atrasos e adiamentos, de tal modo que outra vez não se concluíram as mudanças. Este ano, de novo um período sem eleições, era o ideal. Ademais, ao seu final, faltará só um ano para o encerramento dos mandatos dos membros da Câmara Federal e de dois terços do Senado.
Entretanto, os parlamentares continuam em sua marcha lenta, sem qualquer aparente preocupação em relação ao tempo que passa e às frustrações que aumentam, multiplicadas pela sucessão de escândalos que mancham ainda mais a já desgastada imagem do Legislativo. Outra semana sem qualquer atividade, que acaba servindo também para tentar fazer a população esquecer o escândalo mais recente, o da compra de votos para aprovação da emenda da reeleição. O mais grave é que assuntos da mais extrema importância continuam adormecidos, sem sequer o vislumbre de soluções. A falta de vontade de cumprir o dever, por parte dos políticos, parece se acentuar com o passar do tempo.
Para o Brasil, as consequências desta irresponsabilidade são tremendas. Retardam-se medidas sérias, o governo continua como que manietado e prejudica a própria iniciativa privada em seus esforços contra a recessão e o imobilismo. Com tudo isto, aumenta a descrença do povo em seus representantes, o que atinge também o Poder e as instituições, o que acabará refletindo na própria democracia.

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