Editorial
Em qualquer canto do mundo - no Hemisfério Norte, rico e desenvolvido; no sul, pobre e carente; na África, na América ou no Oriente muçulmano -, o ser humano tem os mesmos anseios. Em toda parte, o que o homem quer é viver com dignidade, ter seu trabalho e educar sua família. Os abusos, os preconceitos, o fanatismo são coisas de grupos que estão longe de representar a maioria, exercendo apenas a força do poder sobre os demais.
As eleições realizadas no Irã na semana passada confirmam plenamente isto. Com liberdade para escolher, a maioria do eleitorado iraniano elegeu para a presidência o candidato mais moderado, que apresentou uma plataforma simples baseada no respeito aos direitos humanos - aí incluídos as direitos da mulher. O Irã foi palco de uma complexa revolução religiosa há duas décadas, quando os aiatolás se insurgiram contra o Xá e seu sistema, a um só tempo ocidentalizado e explorador. A reação religiosa produziu uma mudança radical no país, com o estabelecimento de um governo teocrático e rígido. Passados os anos, o regime se desgastou e o povo, chamado a decidir o futuro nas urnas, escolheu o candidato menos radical. Os eleitores não renegaram os valores atuais - de um modo geral, todos os candidatos estão comprometidos com o regime religioso -, mas optaram por aquele que representa o reconhecimento da dignidade do ser humano, o que inclui o respeito aos anseios das pessoas, sem as peias do fanatismo ou do preconceito.
Revela-se ali a verdadeira tendência de uma sociedade que, em tese, é muito diferente da ocidental. Há muitas diferenças culturais entre os povos do mundo, mas basicamente, e isto desde tempos imemoriais, a sociedade humana tem buscado apenas aquilo que lhe garanta uma vida segura e tranquila. Não é muito o que o homem comum reclama para viver, salvo quando um fanático aparece e sabe explorar em cada um o pior que todos têm. Mas quando os governantes estimulam o que todos têm de melhor e oferecem condições dignas para a existência, conseguem permanecer mesmo enfrentando o desafio das urnas. O povo acaba impondo sua voz e manifestando sua aprovação ou inconformismo, se for o caso.
A decisão do eleitorado iraniano ilustra isto de modo muito claro. Sem romper com os princípios que regem a vida no país, a maioria acabou preferindo alguém que acenou com menos radicalismo e mais respeito, um candidato que buscou junto ao próprio povo a fonte para seu programa, apresentando propostas concretas para alcançar aquilo que as pessoas querem: trabalho, respeito, segurança.
Este resultado serve também como um recado tranquilizador ao mundo, diante do temor suscitado por alguns fanáticos ligados a grupos religiosos radicais em diversos países islâmicos. É importante comprovar que na sua essência os seres humanos querem as mesmas coisas. E não são, na verdade, sequer exigentes. Desejam apenas viver e crescer em paz, não importando a raça, a crença religiosa, a origem étnica. As idéias fanáticas vêm de mentes insanas ou criminosas que buscam usar o povo em seu benefício pessoal. Prevalece, porém, no momento em que se dá liberdade de escolha, quando não há mentiras ou opressão, a parte melhor que cada ser humano tem no seu interior, como tem se percebido por toda parte ao longo da História.





