Editorial
Enquanto levantamento recente divulgado pelas Nações Unidas revela que a corrupção está crescendo no mundo, estudo realizado pela organização alemã Transparência Internacional (TI) mostra que a América Latina conseguiu nos últimos anos avanços significativos na luta contra este flagelo. A TI, uma organização não-governamental, que mantém estreitas relações com mais de 60 países no mundo, afirma que dos oito países latino-americanos pesquisados o Chile é o menos corrupto, com 6,80 pontos. A Venezuela está entre os países com maior corrupção na América Latina e obteve 2,50 pontos. Na lista geral, a Colômbia está em 13º lugar, com 2,73 pontos, seguido do Brasil, 2,96 (15º lugar); Equador, 3,19 (16º); México, 3,30 pontos (17º); Bolívia, 3,40 (19º) e Argentina, 3,41 pontos (20º lugar).
Mais importante que os números é a preocupação mundial hoje em relação a este problema, que se tornou, senão o mais sério, pelo menos o mais perceptível nos últimos tempos. Com efeito, diante de relatórios como os agora divulgados existe a tendência, por vezes equivocada, de considerar que o mundo está sofrendo uma deterioração nos seus valores morais. Na realidade, é preciso observar a questão sob outro enfoque, dada à nova situação que se observa no planeta nos últimos anos. De fato, as mudanças ocorridas nesta década, com a queda do regime comunista e a redemocratização em muitos países - notadamente na América Latina -, criaram uma situação diferente, em termos de transparência.
Efetivamente, a corrupção sob o totalitarismo, seja de esquerda ou de direita, é consideravelmente maior. Isto sempre é comprovado, embora muitos dos que tentaram denunciar tal situação tenham terminado de modo trágico, em prisões tenebrosas, sob tortura, ou diante de pelotões de fuzilamento. Aí a diferença fundamental: o manto protetor das medidas de força, cerceando todo o tipo de liberdade humana, acaba por favorecer a corrupção que campeia desde o mais baixo posto até o comando da cadeia. Um exemplo disto pode ser evocado em acontecimentos recentes: Mobutu Sese Seko, que dominou ditatorialmente o Zaire por 32 anos, acumulou no período uma fortuna assombrosa. Segundo alguns entendidos, ele poderia, com um cheque pessoal, pagar toda a dívida do seu saqueado país.
Com a queda do principal esquema totalitário da Europa oriental, o comunismo, surgindo países que engatinham na democracia, a corrupção eventualmente pode não diminuir no começo. Afinal, não se pode esquecer que este vício, como todos os outros, se enraiza no organismo social. Entretanto, a liberdade que surge, a transparência que se faz obrigatória, acaba por tornar público o abuso. E a reação popular ante o saque, que principalmente a camada governante realiza sobre os bens públicos, vai se tornando cada vez maior.
O próprio fato de existirem hoje organizações não governamentais, que conseguem dados efetivos em um número crescente de países para colocar em evidência a corrupção, é por si positivo. E a constatação feita pela Transparência Internacional, ao revelar que caiu a corrupção na América Latina, uma área que também em recentes anos tem sido vítima de regimes totalitários, é por si muito alentadora.
Isto não é, naturalmente, o fim de um processo. Ao contrário, a consciência mundial exige mudanças radicais. A democracia abre o caminho para a liberdade. Mas é certo que a sequência disto tem de ser, obrigatoriamente, a luta contra este vício, com a punição dos responsáveis e a instauração de um sistema em que o ser humano seja livre e viva sob um sistema político honesto, voltado para a realização do bem comum.





