Editorial
A maioria esmagadora da população (aquela famosa maioria silenciosa composta pelos que querem trabalhar e reclamam tranquilidade e segurança) certamente concorda quando o presidente Fernando Henrique Cardoso se mostra revoltado com a baderna, afirmando ser este tipo de ação tão nocivo quanto a violência das baionetas. Mas o que causa certo espanto (e até uma dose de preocupação) é quando o presidente afirma que paus, pedras e coquetéis Molotov são argumentos tão pouco válidos quanto as baionetas, só que menos poderosos. Fica no ar a dúvida sobre se, para conter a baderna, poderia o chefe da Nação estar pensando em usar a alternativa mais poderosa.
Seguramente, não há de ser esta a saída. Os brasileiros ainda guardam na memória os tempos duros durante os quais os canhões mantiveram a paz, uma verdadeira paz de cemitério, que calava as vozes que clamavam por liberdade. É certo que não há como concordar com a confusão, que se assemelha à libertinagem. O povo não aceita este tipo de bagunça orquestrada, que vem acompanhando o presidente em suas andanças, nem também a onda de alguns que fazem da invasão, da tomada pela força, meios para atingir fins que possam ser eventualmente aceitáveis.
O brado do sr. Fernando Henrique Cardoso, em sua essência, faz eco ao desejo ardente de todos no sentido de se manter a ordem, para que haja condições efetivas da realização dos mais ardentes (e quase sempre simples) anseios dos brasileiros, em todos os pontos do País. Não seria preciso sequer evocar o dístico inscrito na Bandeira Nacional para saber que sem ordem - o que significa respeito à lei - não pode haver progresso, desenvolvimento, vida humana digna.
Esta explosão presidencial carece, porém, de força efetiva. Pois não há como deixar de recordar que o sr. Fernando Henrique Cardoso ascendeu à presidência com uma aceitação maciça do povo. Obteve maioria absoluta no primeiro turno, vale dizer, contava ao ser eleito com o apoio de mais da metade do eleitorado. Tinha como amparo o muito bem-sucedido plano econômico e, com os votos recebidos, ganhava toda a força de que necessitava para realizar o grande trabalho de concretizar a estabilidade, ponto de partida para garantir melhores dias para todo o povo.
Com toda a força que lhe foi conferida pelas urnas, o presidente Fernando Henrique Cardoso não precisaria de mais nada para realizar a tarefa que pediu e que o povo lhe conferiu. Entretanto, passados dois anos de sua administração, percebe-se que faltou precisamente o uso daquele potencial para concretizar as reformas estruturais necessárias para dar base concreta ao novo perfil da economia brasileira. Esquecido da fonte de seu poder, o presidente preferiu partir para negociações, acabando quase que como um refém do Congresso, sem obter até agora as medidas que faziam parte de sua própria plataforma de governo. Faltou-lhe energia e, até devido a isto, se vê agora acuado pelas manifestações e obrigado a bradar contra os baderneiros.
Houvesse usado plenamente o mandato que recebeu do povo, a mais forte de todas as armas para o homem público na democracia, sequer estaria enfrentando hoje a baderna de que se queixa. E não precisaria também apelar para ameaças, veladas ou não, que na verdade não só preocupam, mas melindram um povo que quer, acima de tudo, a manutenção do primado da lei. E é isto o que o presidente deve aos brasileiros, junto com a concretização do projeto econômico. Não precisa mais que isto para corresponder aos anseios que suscitou com sua eleição, há pouco mais de dois anos.





