Editorial
A preocupação que a Confederação Nacional da Indústria manifestou aos presidentes da Câmara Federal e do Senado, em relação à lentidão com que tramitam no Legislativo as importantes reformas institucionais, é também a grande questão que envolve todos quantos se preocupam com o presente e o futuro do Brasil. A CNI pretende também levar idêntica manifestação ao presidente da República diante do quadro complicado que se está formando, no setor político, e que acabará por se refletir na vida econômica.
A grande realidade é que o programa de estabilização da economia, implantado há mais de 3 anos, tem conseguido criar efetivamente condições excelentes para que o Brasil saia do atoleiro do subdesenvolvimento, atingindo o patamar de progresso a que está destinado. Entretanto, o plano depende de fatores múltiplos, entre os quais uma adequação maior do governo à situação em geral. Em relação a isto, o desafio maior, apontado desde que se formulou este plano, é o de acabar com o déficit público. Sem esta vitória, tudo o mais que se faça fica em perigo, inequivocamente. E a preocupação dos empresários da CNI, como de quantos agem tanto na esfera empresarial quanto na vida do trabalho é a de que a demora na adoção de medidas capazes de acabar com o déficit possa colocar todo o programa em risco.
Este quadro se torna ainda mais grave quando, como ocorreu no encontro entre os dirigentes da CNI e o presidente do Senado, o titular daquela Casa afirma que a reforma tributária não sai por falta de vontade política do Executivo. É uma declaração muito séria, que não apenas mostra certa distância entre o chefe de uma das Casas do Congresso e o titular do Executivo, mas também representa a negação de tudo aquilo que o presidente Fernando Henrique Cardoso anuncia como projeto de trabalho.
Na verdade, como mentor do plano de estabilização, Fernando Henrique Cardoso sabe melhor do que qualquer um da necessidade de se conter o déficit público para dar a necessária base para a perenidade do processo econômico. Do mesmo modo, ele tem conhecimento amplo sobre a importância das reformas estruturais, sem as quais não há como equilibrar as contas públicas. Logicamente, e pelo menos em público é o que diz, o presidente da República é o mais direto interessado não só na reforma tributária, mas em todas as mudanças estruturais, que caminham a passo de tartaruga pelo Congresso. E que, ademais, tem sido muito desfiguradas em sua tramitação pelo Legislativo.
O que é inquestionável é esta preocupação de todos os setores da vida nacional em relação à falta de soluções efetivas no campo político para este grande projeto econômico que possibilitou, nestes últimos anos, uma excepcional mudança na vida nacional. O que aconteceu não só com a economia, mas com a vida do Brasil, a partir do lançamento do plano de estabilização, é quase um milagre. O país vinha soçobrando em uma situação mais que calamitosa, sofrendo com uma inflação avassaladora acompanhada, como é até natural, por uma quebra nos próprios valores morais de toda a sociedade. A reversão obtida, desde os primeiros momentos, pode ser considerada verdadeiramente inacreditável.
Isto decorreu, sem dúvida, de uma eficiente engenharia do programa aliada a um comprometimento incondicional por parte do povo. E até agora este resultado tem sido mantido. Todavia, persiste o temor sobre a falta da complementação naquilo que depende diretamente do Poder político, as reformas, a estabilização interna que garante a estabilidade global. A luta dos brasileiros continua a dar resultados. Mas sem a contrapartida oficial, a situação permanece incerta.





