Não há qualquer tipo de justificativa que possa ser apresentada para explicar a tragédia ocorrida em São Paulo, onde três pessoas foram mortas durante a operação de despejo de sem-teto realizada pela Polícia Militar. Entretanto, é fora de dúvida que este, como tantos outros episódios que vêm ocorrendo no Brasil - e também Londrina, que no mesmo dia registrou despejo de invasores de casas, felizmente sem trágicos resultados -, acontece como resultado de uma violência anterior, que é a ocupação ilegal. Os sem-teto, assim como os sem-terra, que resolvem invadir propriedade alheia estão, automaticamente, infringindo a lei. Esta atitude os coloca na marginalidade. Não quer dizer que por causa disto devam ser mortos. Mas o despejo decretado pela Justiça é legal. E a ação policial acaba se realizando como reação a uma ação anterior.
O que precisa ser enfatizado é precisamente o equívoco que tem sido cometido pelos segmentos mais carentes de tentar apelar para soluções de força com o intuito de conseguir resultados. São as invasões em propriedades rurais ou, como no caso, a tomada pela força de locais para moradia. Em um como no outro caso, a atitude é frontalmente contra a lei. E é fundamental insistir em que a lei existe, principalmente, para proteger os mais fracos. Naturalmente, pode-se ponderar que a Justiça é lenta, a lei em muitos casos parece ser apenas letra morta. Mas é certo que fora do contexto legal os mais carentes acabam sendo sempre, inquestionavelmente, prejudicados. E, ademais, no momento em que adotam atitudes ilegais, se colocam em posição vulnerável.
Nada vai devolver as vidas perdidas no confronto de São Paulo, como também não haverá modo de resgatar tantas outras já ceifadas nos múltiplos enfrentamentos ocorridos entre os invasores (rurais ou urbanos) e as forças policiais. Ainda que se comprovem abusos, mesmo que algum eventual responsável venha a ser punido, o mal foi feito de modo irremediável. E para os sobreviventes, restará apenas a dor e a revolta, que não levarão à solução do problema. Lamentavelmente, o que sempre acaba acontecendo é que as vítimas sobreviventes da violência acabam se tornando em instrumentos dóceis para os agitadores, que têm feito deste tipo de ação um meio para agitar tanto o campo quanto a cidade.
Mais grave ainda é constatar que as invasões não estão servindo à causa dos que, até justamente, reclamam um pedaço de terra para plantar ou um teto para abrigar suas famílias. A injustiça social não se resolverá pela via violenta, seja ela a ocupação de alguma coisa ou a manifestação de grupos em choque contra a polícia ou jagunços. Que o Brasil tem um débito imenso para com suas populações mais pobres, é inegável. E que pouco tem sido feito no sentido de resgatar esta dívida, também se sabe. Entretanto, não é necessária (e menos ainda aconselhável) a adoção de atitudes violentas para conseguir reverter este quadro.
A realidade, porém, é que para os sem-terra, os sem-teto, os sem-emprego e todos os demais marginalizados da sociedade brasileira o recurso a atitudes ilegais não constitui solução. É dentro da lei, com os instrumentos de pressão legítimos que a sociedade organizada e democrática possui, que podem e devem ser encontradas as soluções para os dramas sociais que infelicitam o povo. Infelizmente, mesmo quando existe disposição para enfrentar este desafio, sabe-se que é demorada a resolução dos problemas. E o que a sociedade tem de cobrar é esta vontade política e a agilidade para solucionar estes dramas, em nome da própria dignidade humana de todos os brasileiros. Dentro da lei, que existe para proteger a todos, mas principalmente os que mais necessitam dela.

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