Editorial
Sem intervenção
Se é certo que a América Latina tem uma não muito agradável tradição no que diz respeito a golpes de Estado (embora, nos últimos anos, esta tendência esteja em queda), é também correto que na Europa a tradição é outra: ali, persiste a guerra. Há guerras grandes e pequenas, algumas limitadas, algumas envolvendo o resto do mundo (como nos conflitos de 1914 e de 1939). Mais do que em qualquer parte do planeta, na Europa se tem a confirmação da estupidez humana, que vive de guerra em guerra ao longo dos séculos. Nos últimos meses, foi marcante o ataque da Otan (um organismo preponderantemente europeu, com forte apoio dos Estados Unidos, outro país de enorme vocação intervencionista) contra a Iugoslávia. Agora, há o conflito em que a Rússia ataca a Chechênia. Nos dois casos, percebe-se a intenção clara de intervir nos destinos de outro país, fruto de mentalidade eventualmente deturpada e de séculos de xenofobia, com lutas tribais convertendo-se em conflitos sangrentos e sem fim.
Já se tentou implantar este tipo de atitude na América Latina. Quando Cuba resolveu adotar o comunismo, os Estados Unidos tentaram de todos os modos cooptar o continente para uma ação contra a pequena ilha. Naquela época, o então presidente brasileiro, Jânio Quadros, posicionou-se frontalmente contra (há quem diga que esta foi uma das causas do seu enfraquecimento, que conduziu aos eventos posteriores e à sua renúncia) sendo um dos maiores defensores da doutrina da não-intervenção, considerando que cada país tem o direito à autodeterminação. Não foi fácil, mas os norte-americanos tiveram de engolir esta posição e conviver, até agora, com uma nação comunista bem próxima de suas fronteiras.
O fim da União Soviética, a queda do comunismo na Europa Oriental, entre outras coisas, reduziram bastante a paranóia anticomunista de tal modo que hoje Fidel Castro é bem recebido por todo o continente, não sendo de duvidar que se viver o suficiente vai acabar até visitando o Salão Oval da Casa Branca. Entretanto, a idéia de se imiscuir na vida de outros países, de intervir com ou sem razão, persiste. E a mais recente tendência é a de se realizar uma ação de alguns países do continente visando intervir na Colômbia. Os problemas colombianos, sabe-se, são sérios. Além dos cartéis de droga, há as guerrilhas. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC, marxistas) constituem um enorme desafio ao governo colombiano. E a idéia de uma intervenção externa tem sido veiculada com certa frequência nos últimos tempos.
Afirmando que nem o governo da Colômbia, nem os Estados Unidos o consultaram sobre o assunto, o presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso já se antecipou a qualquer idéia, afirmando, em entrevista ao jornal colombiano El Tiempo, que seu país não quer ser o xerife da América do Sul e por isso não pretende intervir militarmente no conflito colombiano, ainda que surjam apelos nesse sentido por parte do governo de Bogotá. Fernando Henrique, com uma visão clara da questão, foi taxativo ao enfatizar que seria uma ilusão imaginar que possam ser tomadas medidas externas para solucionar as dificuldades colombianas. Prevalece a tese da não-intervenção, entendendo-se que problemas internos devam ser resolvidos pelas partes envolvidas. O que o Brasil pode fazer, conforme FHC, é colaborar com o esquema de negociações de paz da Colômbia, apoiando o diálogo. Mas sem se imiscuir, o que, pelo menos, reduz o temor de que possamos ver por aqui a repetição dos massacres que estão ocorrendo pela Europa. Uma postura que mostra que embora chamado Novo Mundo, o continente (pelo menos o segmento latino) apresenta muito mais maturidade que a dos belicistas europeus.





