Existem atualmente no mundo 400 multimilionários com mais riqueza do que a metade da população mundial, segundo revela o prêmio Nobel da Paz e ex-presidente da Costa Rica, Oscar Arias, assinalando que esta situação constitui um convite ao conflito. Em uma entrevista ao semanário ‘‘Newsweek’’, Arias advertiu que a democracia na América Latina ‘‘está perdendo a batalha contra a pobreza’’ e ‘‘se não melhorarem as condições de vida, sempre estará em perigo’’. ‘‘A democracia - disse - não é apenas a distribuição do poder político. Também é, ou deveria ser, a distribuição de poder econômico. Com as desigualdades que aumentaram nos últimos 15 anos, cada vez será mais difícil para a democracia consolidar suas conquistas’’.
Esta questão relativa à democracia e à pobreza preocupa há muito as pessoas mais sensíveis e observadoras. De fato, é muito complicado falar em liberdade, quando o ser humano não tem sequer o mínimo para se manter vivo. Entretanto, há o outro lado do problema. Faz parte inclusive do discurso totalitário a indicação de que o que o povo quer é comer, sendo a liberdade - e por extensão a democracia - um assunto secundário nas preocupações humanas.
É óbvio que neste, como em tantos outros assuntos relativos à vida do homem, as posições radicais não resolvem. Para o ser humano, comer é essencial. Mas considerar que isto é o único bem necessário, é simplesmente aceitar a tese da escravidão. Afinal, o escravo não tem problemas para comer, vestir ou morar. Isto tudo lhe é dado pelo senhor, afinal interessado no seu bem-estar físico para que produza. Ocorre que há outros bens fundamentais para a vida humana. E a liberdade é um deles, inquestionavelmente.
O desafio portanto é o de manter a liberdade individual e propiciar ao indivíduo condições dignas de vida. Uma equação perfeitamente possível, desde que haja mudança profunda nos conceitos, notadamente por parte daqueles que governam e que deveriam apresentar soluções capazes de alcançar este tão adequado equilíbrio. A denúncia de Oscar Arias sobre a excessiva concentração de renda é que deveria merecer maior atenção. Inclusive porque o perigo apontado pelo Nobel da Paz está na explosão de conflitos por parte dos que vivem em situação cada vez pior. O perigo de uma explosão social, em face das injustiças, ao sofrimento das maiorias oprimidas não é apenas uma ilusão de quem está longe da realidade, mas a percepção de uma pessoa que já dirigiu os destinos de um país e que percebe que está faltando hoje, inclusive na política de globalização, o elemento humano, a preocupação com a melhor distribuição de bens entre as pessoas que povoam a terra.
Com rara percepção e coragem, Arias também advertiu os Estados Unidos de que, apesar da crença difundida, ‘‘a liberalização do comércio não vai resolver os problemas do Haiti, Nicarágua ou da África Subsahariana’’. Esta conclusão é simples e também importante, ainda mais porque, nos últimos tempos, a idéia da globalização vem sendo vendida ao mundo como a ‘‘solução mágica’’ para todos os problemas, o que efetivamente não é. Sem uma preocupação voltada para a melhor distribuição das rendas, esta nova política pode tornar os ricos ainda mais ricos e os pobres mais miseráveis.
E não há qualquer dúvida sobre o perigo apontado pelo Nobel da Paz caso não se adotem medidas objetivas para alterar esta realidade, em cada país e no mundo. Não há outra alternativa para o problema. Ou os governos democráticos encontram meios de democratizar também a renda, ou enfrentam o risco de fortes e incontornáveis conflitos sociais.

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