No momento em que não há mais dúvidas sobre a queda do ditador do Zaire, Mobutu Sese Seko, o governo dos Estados Unidos oferece ao líder dos rebeldes uma substancial ajuda sob a condição de que, rapidamente, restaure no país a democracia. Laurente Kabila, o agora já autonomeado novo dirigente do Zaire, não aceitou, antecipando que pretende, no mínimo, manter-se no poder por pelo menos cinco anos para corrigir os desmandos de 30 anos da sanguinária e corrupta administração de Mobutu, apoiada o tempo todo pelos Estados Unidos, além da França.
O que está acontecendo hoje no Zaire não é uma situação simples, decorrente da eventual insatisfação de grupos contra um dirigente corrupto. A história daquele país, uma colônia com enormes riquezas fundada por portugueses na época das navegações, explorada ao máximo pelos belgas e que conseguiu sua independência há poucas décadas, tem sido marcada por barbarismo interno e enorme abuso externo. Quando conquistou a independência, o país se chamava Congo Belga e o líder da virada histórica era Patrice Lumumba, um dos muitos lutadores anticolonialistas marxistas ligados à União Soviética.
O mundo vivia em plena Guerra Fria e as superpotências da época lutavam em toda parte pelo predomínio. Os Estados Unidos, naturalmente, procuravam minar a liderança comunista no antigo Congo Belga e não apenas estimularam, mas apoiaram de todos os modos o opositor de Lumumba, exatamente Mobutu Sese Seko. O banho de sangue que se sucedeu está hoje praticamente esquecido. Com o aval, o apoio e a força dos norte-americanos, Mobutu não só conquistou o poder e esmagou os oponentes, como tornou-se um todo poderoso senhor da vida, da morte e dos bens dos zairenses.
O assalto feito aos cofres nacionais por Mobutu e seus asseclas, sempre com o beneplácito das potências ocidentais, não pode sequer ser calculado. De qualquer modo, a fortuna que Mobutu acumulou em 30 anos de mando é capaz de fazer parecer pobres coitados os antigos ditadores dos países latino-americanos. Quanto à situação do povo, não é preciso mais do que as cenas que têm sido mostradas nos últimos anos, com refugiados formando multidões e sendo massacrados e escorraçados impiedosamente. O Zaire, de grandes riquezas - também por isto merecendo a ‘atenção’ das potências do mundo -, tem um povo pobre e sofrido. Isto em função de um governo corrupto e sanguinário que em tempo algum sofreu qualquer tipo de sanção ou reprimenda do mundo. Só nos últimos tempos, quando se percebeu que Mobutu estava no fim, é que surgiram as primeiras ‘denúncias’ de abusos contra os direitos humanos.
A preocupação mundial com o destino do povo do Zaire é natural. A dramática situação dos refugiados não pode ser minimizada. E a rebelião que está tirando Mobutu do poder constitui uma reação. A grande esperança é que os zairenses possam se livrar da opressão, do assalto, do abuso e encontre um caminho melhor, possível pelas riquezas que o Zaire possui. Isto tem de ser uma tarefa interna. O mundo pode ajudar, naturalmente. Mas os zairenses não precisam é da hipocrisia de quem, há 30 anos, ajudou a explorá-los e hoje pretende impor de novo soluções, sem sequer se dar ao trabalho de assumir sua própria responsabilidade nos massacres que infelicitaram o país. Kabila talvez não seja a solução para os imensos problemas, inclusive tribais, do país. Mas deve ser menos corrupto e sanguinário do que Mobutu, o que seria, no mínimo, um bom começo.

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