Editorial
O observador desatento da realidade sul-americana poderá se mostrar muito satisfeito ao constatar que, atualmente, não há ditaduras na região. Distantes parecem os tempos das ditaduras na Argentina, Brasil, Paraguai, Venezuela, Chile, entre outros. Foram-se os caudilhos e hoje a democracia vigora por toda parte com os governantes legitimamente eleitos realizando seu trabalho.
Infelizmente, porém, uma análise aprofundada pode mostrar que o germe do caudilhismo parece estar muito mais próximo do que se pensa. Alguns governantes, esquecidos até da origem de seus mandatos, dos discursos democráticos e até mesmo da essência de tais regimes, que consideram de suma importância a alternância no poder, começam a mostrar as garras, lutando para se eternizar no comando, revelando traços típicos dos mais conhecidos ditadores. Está aí o presidente do Peru, Alberto Fujimori, eleito democraticamente e que fechou o Parlamento e o Judiciário, impôs uma reforma política, conseguiu se reeleger e agora tenta conseguir brechas para obter seu terceiro mandato. Na Argentina, o quadro não se mostra muito diferente: Carlos Menem, igualmente eleito em termos democráticos, articulou-se de tal modo que conseguiu o direito de pleitear um novo mandato, e o obteve.
Menem, como Fujimori, já não consegue esconder a intenção de conseguir mais um mandato à frente do governo argentino. Um como outro, apresentam a mesma idéia dos antigos ditadores (herdada possivelmente dos Césares da antiga Roma, que se consideravam até encarnações divinas), e parecem acreditar que ninguém mais, senão eles, poderá levar o respectivo país a um destino melhor. Em entrevista à TV esta semana, o presidente argentino foi enfático ao assinalar que se porventura o povo eleger no próximo pleito legislativo maioria da oposição, terá que governar por decreto, no mais puro estilo totalitário.
Há também o caso do Equador, onde o presidente eleito foi afastado do cargo através de uma esquisita manobra do Legislativo, que sem qualquer atestado médico declarou o titular do Executivo louco. E com isto foi-se o detentor dos votos, enquanto assumia o presidente do Parlamento. Aparentemente, uma solução democrática, afinal foi o Legislativo que determinou a perda do mandato do presidente. Mas, no mínimo, uma decisão discutível.
Estes ventos também estão soprando por aqui. Insistindo em que o projeto de estabilização não pode se realizar em um mandato apenas, e considerando-se pessoalmente responsável por ele, uma vez que foi o mentor do programa antes de se eleger presidente, o sr. Fernando Henrique Cardoso está jogando todo o seu prestígio para conseguir o direito de candidatar-se à própria sucessão. Não se trata, no caso, de uma idéia caudilhesca, ainda, mas tem no fundo aquele sabor da sugestão segundo a qual ele, o presidente, se considera o único capaz de realizar o trabalho. É como se vê no Peru, como se pode pressentir na Argentina, o começo de um processo.
Para complicar as coisas, explodiu agora a denúncia sobre a compra de votos, precisamente em relação à emenda da reeleição. O Executivo tenta evitar a formação de uma CPI para o assunto, temendo que isto possa prejudicar a tese da reeleição em si. O povo, na verdade, não crê muito mais nas CPIs. Mas estranha o esforço para evitar que se forme uma. A situação se tornou muito delicada. O sonho continuísta do sr. Fernando Henrique Cardoso pode se converter em pesadelo. Reeleger-se ainda é possível. Mas o preço disto pode ser elevado demais, principalmente à democracia.





