Caso houvesse prevalecido o parlamentarismo no plebiscito realizado no País há algum tempo - como defendia o partido do atual presidente, o PSDB -, é certo que o governo já teria caído em face dos múltiplos escândalos que vêm sendo noticiados e, principalmente, diante deste último relativo à compra de votos para aprovação da emenda da reeleição. Dizer que no parlamentarismo não seria necessária a reeleição é apenas tergiversar, pois o que se trata é de assinalar que quando explodem denúncias tão sérias o governo perde toda a credibilidade. E a partir daí torna-se muito mais difícil realizar suas tarefas. Se é no parlamentarismo, a eventual convocação de novas eleições restaura o clima de confiança. No caso presente, porém, o que se faz absolutamente necessário é que haja medidas muito concretas para dar ao povo a convicção de que o Poder não está conivente com a fraude, o abuso e a corrupção.
A situação política brasileira está se deteriorando a cada dia e os reflexos podem ser muito danosos, tanto para o povo quanto para a própria classe governante. A perda da confiança da população em seus representantes é o fator mais desgastante para qualquer administração. Quando se recorda que o maior capital que o atual presidente possui é a credibilidade do povo, percebe-se quanto mal estes episódios podem provocar. O próprio projeto de estabilização, que teve o sr. Fernando Henrique Cardoso como mentor, ainda no governo Itamar Franco, e que foi fundamental para a eleição do presidente, com maioria absoluta logo no primeiro turno, depende fundamentalmente desta confiança. Se ela se quebra, todo o processo fica ameaçado.
Mais sério ainda é quando a denúncia envolve precisamente a delicada questão da reeleição. Não há dúvidas sobre o fato de que a emenda relativa ao assunto foi colocada em época inoportuna. Os parlamentares perderam a oportunidade de aprovar a reeleição durante a época da reforma constitucional, que reduziu o mandato do presidente. Na ocasião, recorda-se, a idéia foi rejeitada pelo plenário. Trazer de novo o assunto à baila, como foi feito, de modo até muito casuístico porque estava clara a intenção de permitir especificamente ao atual presidente a disputa de novo mandato, foi uma iniciativa infeliz. E esta denúncia agora, de que houve compra de votos para aprovar a emenda, representa a pá de cal sobre o processo.
Cassar o mandato dos envolvidos - como se antecipa - não é suficiente diante do que, em tempos anteriores, se chamaria ‘mar de lama’ correndo sob os alicerces do Poder no Brasil. Há muitas acusações, tem havido sequência inaceitável de escândalos, de abusos, de assaltos ao poder público, que não admitem apenas alguns paliativos ou a entrega da cabeça de meia dúzia como vítimas de sacrifício em benefício da democracia. A sucessão de denúncias, os conchavos que têm feito parte quase que natural do processo político, o fisiologismo muito claro de algumas legendas, isto tudo está fazendo apodrecer as próprias estruturas do governo, conspurcando a democracia e diminuindo, perigosamente, a credibilidade do poder junto ao povo.
Na falta da alternativa de uma convocação de eleições antecipadas (a solução parlamentarista), impõe-se aos dois Poderes diretamente envolvidos - o Legislativo, que é a Casa onde teria havido a negociata, e o Executivo, porque está por trás das emendas constitucionais - uma ação concreta, eficaz e corajosa. Porque ou se corta o mal da corrupção de vez, sem medo, ou ela acabará contaminando, talvez irremediavelmente, todo o sistema político brasileiro.

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