É possível ponderar que invadir ministérios, promover passeatas, levar animais, não são formas adequadas para despertar a atenção das autoridades. O que é inquestionável, porém, é que de fato o Brasil em geral e as autoridades em particular precisam efetivamente escutar o grito da terra, o reclamo dos que produzem, a vontade dos que querem trabalhar no campo, que é a grande riqueza deste País, o capital único capaz de resolver todos os problemas econômicos e sociais de parte da população e que, de certo modo, são comuns a todos os brasileiros.
Pois a grande verdade, da qual infelizmente os governantes tentam fugir, é que se não resolver o problema real dos famintos e miseráveis, o Brasil todo continuará a sofrer das mazelas do subdesenvolvimento. Haverá alguns muito ricos, existirão os remediados, mas assim como se diz que a força de uma corrente é medida por seu elo mais fraco, também se pode afirmar que a medida certa da situação de um povo é dada pelos mais necessitados.
O Brasil tem permanecido surdo ao grito da terra há séculos. A História bem o ilustra. Os primeiros exploradores vieram para encontrar ouro, pedras preciosas, especiarias. A grande riqueza que era a terra em si, com sua fertilidade (o que foi inclusive percebido por Pero Vaz Caminha), ficou esquecida. Quando afinal começou a colonização, então a terra foi valorizada. Mas é interessante observar como a atividade rural não era exatamente prestigiada. Para trabalhar a terra, vieram os escravos. Quando a escravidão acabou, abriram-se as portas para os imigrantes. E a atividade rural continuou a ser considerada menor.
O sucesso obtido pelos imigrantes, a riqueza conquistada pelos que se dedicaram à terra, isto não chegou a mudar a forma de ver a situação. Na época da explosão industrial foi lançada a idéia de que um país só podia se considerar moderno se baseado na indústria. Mais uma vez, a agricultura foi descurada. Se tudo isto não bastasse, o governo se incumbiu de dar o passo final para desestruturar o campo, com o estatuto do trabalhador rural. Criou-se a ‘indústria das reclamações trabalhistas’, o campo se esvaziou, as cidades incharam, surgiram os bóias-frias. Com outra penada, a falta de apoio aos pequenos produtores, junto com uma política desorganizada de formação de barragens, acabou criando os sem-terra.
E aí estão, hoje, estas multidões de homens da terra pedindo apenas condições para trabalhar. Os sem-terra querendo um pedaço de chão, os pequenos produtores reclamando o apoio mínimo que representaria a solução para os seus problemas e para muitas das dificuldades do país. Enquanto crescem as estatísticas relativas ao desemprego, com as indústrias demitindo dentro de planos de modernização, persiste a falta de visão sobre o potencial do campo como gerador de empregos, de comida, de riquezas, de progresso.
É imperioso que o grito da terra seja efetivamente ouvido pelas autoridades. Tem havido, nos últimos tempos, alguns discursos interessantes sobre o apoio que o governo pretende dar à produção. São indicadores positivos, mas ainda é pouco. As legiões de sem-terra estão por toda parte, reclamando condições para assumir seu papel. Os bóias-frias também vegetam nas favelas, sem esperanças. Os pequenos produtores sofrem pela falta de um mínimo apoio. Se o Brasil voltar os olhos para o campo, atender o trabalhador rural, apoiar os que querem (e podem) voltar à terra, terá dado o passo definitivo para sair da miséria em que vivem milhões. É uma questão de escolha.

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