Editorial
Durante décadas, milhares de pessoas, oriundas da Europa e da Ásia, deixaram para trás suas vidas, suas histórias, seu passado, e, enchendo navios (principalmente), buscaram no chamado Novo Mundo uma esperança de vida. A maioria estava desesperançada, sem futuro, enfrentando dificuldades e buscava uma nova oportunidade. As Américas, com sua amplidão, terras férteis, riquezas infinitas, correspondia aos sonhos e esperanças daqueles chamados imigrantes.
E não se pode dizer que as esperanças tenham sido frustradas. Não havia, como muitos acreditavam, ouro jogado pelas ruas, pedras preciosas pendendo de árvores, mas a terra estava preparada, à espera de quem tivesse coragem e vontade de trabalhar; as cidades se abriam para os novos habitantes e os imigrantes acabaram criando uma nova civilização, unindo-se e forjando uma vida diferente nas terras distantes do chamado Novo Mundo. Hoje, é praticamente impossível dimensionar a contribuição dos imigrantes ao desenvolvimento que ocorreu pelo continente. Construíram novas civilizações, produziram riquezas e, em muitos casos, se beneficiaram delas. Mas, principalmente, forjaram uma nova conceituação de vida.
O Brasil foi um dos países que se beneficiou deste afluxo. Juntamente com os descobridores portugueses, com os escravos trazidos da África, dos aventureiros dos primeiros séculos, os imigrantes formaram aqui uma civilização ímpar no mundo. Italianos, japoneses, turcos, russos, ucranianos, seres humanos de praticamente todos os países do mundo se uniram no Brasil para um trabalho comum que resultou nesta terra que irmana a todos e que representou por longo tempo um verdadeiro sonho.
As coisas, porém, mudaram. E, desde há alguns anos, está ocorrendo um refluxo. O Brasil não está mais recebendo imigrantes, está mandando seus filhos para outros países. Os descendentes dos japoneses, que realizaram por aqui, especialmente neste Norte do Paraná, um trabalho excepcional, criando cidades, dando um exemplo fantástico, estão agora voltando para o Japão, procurando ali o que não conseguem encontrar aqui. Brasileiros de outras origens vão para os Estados Unidos, Canadá, Europa, engrossando a leva dos emigrantes que tentam a sorte em outras plagas porque, parece, a esperança acabou e o Brasil não é mais o que foi por décadas.
Esta situação, infelizmente, não tem sido analisada com a devida atenção. O que os brasileiros estão procurando lá fora é a esperança que está sendo negada aqui. Não é difícil perceber isto. Especialmente nos últimos anos, a recessão, as dificuldades, os problemas econômicos, sociais e até políticos, derrubaram até a esperança do povo. Não se trata, apenas, da falta de empregos, da inadequação aos tempos que exigem mudanças, mas de uma letargia que é muito similar à do antigo personagem Jeca Tatu que morria de fome sobre uma terra fértil, porque não trabalhava nela. Mas o personagem, revelou-se ao fim, estava doente.
A situação agora é outra. Os brasileiros, chamando-se assim a todos os que surgiram da mescla dos povos que construíram nossa terra, querem trabalhar, desejam progredir, sonham com uma vida digna. E não encontram condições ou possibilidades de realizar isto em sua terra. É fora de dúvida que esta situação precisa merecer muito maior atenção por parte de todos. O Brasil está perdendo sua maior força, o vigor, a vontade, a disposição de seus jovens. Esta é uma perda irrecuperável. Não procurar soluções capazes de manter aqui os brasileiros é, sem dúvida, um verdadeiro crime que se comete contra o próprio país, e que não poderá ser reparado depois.





