Editorial
A sociedade humana, fundada em leis que garantem a convivência, enfrenta enormes desafios. A impressão, nos últimos tempos, diante da evolução do crime organizado, envolvendo principalmente o narcotráfico, que movimenta bilhões de dólares, era a de que este constituía o maior desafio para a civilização. Informe divulgado esta semana pela Comissão para a Prevenção do Crime e para a Justiça Penal, órgão criado pela Organização das Nações Unidas em 1992, apresenta, porém, outro flagelo mundial: a corrupção.
Conforme o documento, a derrubada do Muro de Berlim e a globalização da economia favorecem a corrupção em escala planetária. O documento destaca que a liberalização dos intercâmbios em escala mundial facilita as transações financeiras ilegais e permite que o crime organizado cresça, lembrando que isto só pode ocorrer com o apoio da corrupção, nos meios governamentais, principalmente. De modo até assustador, o relatório estima que nenhum sistema político está completamente a salvo da corrupção.
A corrupção ocorre tanto entre os altos funcionários e os dirigentes de países (subornos, financiamento ilícito de partidos e de organizações políticas) como entre os chefes de empresas que estabelecem acordos ilícitos às custas de seus clientes públicos ou privados. Para complicar a questão, o estudo da ONU revela que a corrupção também ocorre entre pessoas detentoras de um conhecimento exclusivo, por exemplo, cientistas físico-químicos ou pessoal que trabalha para ministérios de defesa.
Segundo Dimitrios Vlassis, um funcionário da Comissão, o problema da corrupção afeta o conjunto da economia mundial, mas é impossível ser quantificado devido à sua natureza clandestina. Entretanto, os efeitos desta nova realidade vão sendo observados conforme a ONU em praticamente todos os continentes. O trabalho se dedicou mais à situação existente nos países da Europa Oriental, que estão passando por grandes transformações políticas, saindo do sistema comunista, e revela que a série de privatizações ocorrida ali gerou, paralelamente, boas ocasiões de corrupção.
Combater o crime organizado em escala mundial é uma tarefa difícil, exigindo, mais que vontade política, a união entre todos os povos civilizados. No caso da corrupção, destaca a ONU, a questão é ainda mais difícil. Não se exige um trabalho global, mas uma efetiva coragem individual, uma disposição comunitária para enfrentar uma forma de ação que não só prejudica financeiramente os povos como influi até sobre o corpo social. A corrupção, assim como a inflação, é um verdadeiro câncer que atua em todos os órgãos da sociedade e o contamina. Os brasileiros, tendo convivido por décadas com uma inflação selvagem, num sistema em que a corrupção era e ainda é fator permanente e não eventual - como se pôde perceber a partir da redemocratização -, sabem perfeitamente dos danos que isto acarreta, enfraquecendo até a própria consciência coletiva.
Ao contrário do que ocorre com o crime organizado, a corrupção tem de ser detectada e combatida em níveis internos. Sem dúvida, o fenômeno da globalização torna a corrupção uma praga planetária. Mas o combate a essa praga é uma tarefa individual dos países afetados. Um pode ajudar o outro - por exemplo, tornando menos protetoras suas legislações bancárias -, mas nenhum conseguirá coisa alguma se não fizer o que tem de ser feito. Isto significa que se houver coragem para enfrentar este câncer que atinge o organismo do Estado, em cada país, será possível vencê-lo. O desafio tem que ser assumido em cada lugar, pelos políticos, pela imprensa e, principalmente, pelo povo.





