Editorial
Lições de Tokaimura
Foi apenas nos anos 70, com a quadruplicação dos preços do petróleo que o mundo de fato despertou para a grande questão energética. Repentinamente, os países importadores de petróleo perceberam sua extrema dependência. A conscientização acelerou a busca de fontes alternativas de energia. Aquela idéia que vigorou ao longo de décadas de energia barata e farta, oriunda do petróleo, caiu em meio a uma crise que quase levou metade do mundo à bancarrota. Ao mesmo tempo, a situação conduziu ao investimento em outras fontes capazes de reduzir ou eliminar o problema.
A percepção de que energia era poder e que a necessidade vital de petróleo representava um risco à própria soberania dos países provocou mudanças que levaram a humanidade a procurar as mais variadas soluções. Neste quadro, ampliou-se de modo drástico a pesquisa e o uso da energia atômica para fins pacíficos. Trata-se de uma opção considerável. A energia nuclear constitui uma alternativa eficiente para a produção energética e para muitos países sem recursos naturais é talvez uma das mais efetivas saídas. Ocorre que os riscos que acompanham a exploração da energia atômica são imensos. Adicionalmente, com o sucesso e a intimidade com a nova fonte energética obtidos nas últimas décadas, existe certa tendência à redução das medidas de segurança, aumentando o perigo de acidentes de consequências terríveis.
O que aconteceu no Japão na semana passada é bem indicativo. Num atestado evidente da falta de cuidados, a própria empresa que administra o complexo nuclear em Tokaimura admitiu ter deliberadamente violado as normas oficiais de segurança durante quatro anos. O governo do Japão abriu, ontem, uma investigação policial para tentar conhecer a causa do acidente. Paralelamente, especialistas da Agência para a Ciência e Tecnologia estão realizando investigações na sede central da empresa em Tóquio e nas instalações de Tokaimura. A JCO reconheceu ter autorizado, em um manual de procedimentos, que não foi validado pelos poderes públicos, a manipulação de urânio enriquecido em simples contêineres de aço. Apesar desta prática não ser a causa direta do acidente, aponta um conjunto de negligências e erros que levaram à reação nuclear descontrolada. Akito Arima, diretor-geral da Agência para a Ciência e Tecnologia, reconhece que a segurança nuclear do país tem problemas.
O governo japonês, que admitiu ter subestimado a gravidade do acidente e demorado para reagir, pode sentar no banco dos réus porque autorizou a criação da fábrica em 1993 sem exigir a implantação de um dispositivo que permitisse fazer frente a um eventual acidente crítico. Esta situação é tanto mais chocante quando se recorda que o Japão é o único país do mundo que já sofreu o efeito real de explosões atômicas, ao final da 2ª Guerra Mundial. Por causa disto, entre outras coisas, é grande a repulsa do povo japonês à energia atômica. Entretanto, a própria situação do país, sem recursos naturais e extremamente dependente da energia externa, leva naturalmente à opção pelo uso da energia atômica. O que não se entende ou aceita é a falta de cuidado e atenção na manipulação de tão sensível área, o que acabou criando condições para a ocorrência do acidente.
O que ressalta no caso é que a falta de cautela na gestão de usinas nucleares representa um risco tão grande quanto o representado pelas armas atômicas. E é certo que acidentes como o de Tokaimura devem servir de lição ao mundo. A irresponsabilidade na atuação em usinas atômicas pode custar muito caro à humanidade.





