Editorial
Na sua primeira excursão pela América Latina, desde que assumiu há mais de 4 anos a presidência dos Estados Unidos - a ida ao Haiti, para resolver a crise relativa à deposição do presidente daquele país, não conta -, o presidente Bill Clinton tem insistido na tese sobre a abertura comercial, defendendo verdadeiro mercado comum americano. Tanto no México quanto na Costa Rica, Clinton defendeu a idéia de uma ampla parceria, incluindo os países de todo o Continente, para formalizar até o ano 2005 a Área de Livre Comércio Americana, ALCA, sonho que ultrapassa até os projetos de Simon Bolivar, o grande libertador de muitos países da América espanhola.
A idéia é fantástica. A América, apesar da miséria de boa parte de seu povo, ainda é o Continente que tem condições de se expandir, até porque não foi totalmente explorado, conta com clima fantástico, notadamente na região sul, e está pronta mesmo para realizar o grande salto que a conduza - e a seus povos - a uma situação melhor. Infelizmente, porém, isto não se faz apenas com discursos ou pretensas boas intenções. Quase que como resposta aos pronunciamentos do presidente norte-americano, o Brasil anuncia posição visando exigir dos Estados Unidos a redução das barreiras à importação de produtos brasileiros, como contrapartida para a criação da ALCA.
Esta tem de ser, naturalmente, a primeira medida. Falar em parceria, sugerir abertura, propor negócios plenos entre as partes é muito interessante. Entretanto, o discurso se perde quando se sabe das limitações impostas à importação, não só de produtos brasileiros, no mercado norte-americano. Tudo é desculpa para se fechar o mercado ao que vem de fora. Na verdade, se existe país que cria dificuldades e entraves, principalmente aos produtos da América Latina, este é o que é presidido agora pelo sr. Clinton.
A idéia de um mercado aberto, livre, pleno, envolvendo toda a América é, sem dúvida, atrativa. Tem que ser, porém, via de duas mãos, o que não se percebe no discurso do presidente norte-americano. Tanto no México quanto na Costa Rica, o sr. Clinton falou muito e disse pouco. Deixou no ar a idéia de que seria altamente interessante para os norte-americanos uma situação mais livre de entraves em seus negócios com os vizinhos do sul. Mas esta é, sem qualquer dúvida, a postura do ladino ante o vizinho pobre. Todavia, hoje os tempos são outros e não há tanta ingenuidade, ao menos no Continente, quanto havia há 50 ou 100 anos.
Tanto isto é certo que a posição oficial do Brasil, reclamando uma política de reciprocidade dos Estados Unidos para este ideal de abertura do mercado, em nível continental, está ganhando o apoio dos empresários nacionais, que sabem mais do que ninguém das dificuldades para se colocar no mercado norte-americano. E é certo que os parceiros do Mercosul, tanto os governos quanto o empresariado da região, devem adotar postura idêntica, reclamando para aceitar este tipo de oferta um posicionamento franco e sem truques. A tão sonhada área de Livre Comércio Americana só pode existir, de fato, se for boa para todos os envolvidos
O presidente norte-americano já tem agendadas visitas ao sul do Continente. Seguramente, virá com o mesmo discurso. Há tempo para que o Brasil, um dos países a ser visitados, juntamente com os parceiros do Mercosul se preparem para isto. E quando o sr. Clinton começar a falar na excelência de um mercado americano aberto, será possível apresentar-lhe propostas definidas, incluindo aí o fim das restrições norte-americanas aos produtos desta parte do mundo.





