Inversão perigosa

A anunciada intenção do Executivo Federal de ver primeiro aprovada a emenda da reeleição para, depois, cuidar das reformas institucionais é uma inversão de prioridades que contraria até mesmo a manifestação da vontade popular expressa nas urnas em 1994, quando foi eleito o presidente Fernando Henrique Cardoso. Obtendo maioria absoluta logo no primeiro turno, o atual presidente estava naturalmente comprometido com as reformas, que eram e ainda são fundamentais para o processo de estabilização da economia - promessa nº 1 de sua campanha. Quase dois anos depois de empossado, o governo não só não conseguiu fazer passar pelo Congresso as principais reformas - Administrativa, Tributária e da Previdência -, como resolve mudar a ordem dos fatores. Agora, passou a ser mais importante poder concorrer a um novo mandato do que consolidar a estabilização através das reformas estruturais.
A mudança de rota chega a espantar quando se recorda que o senador Fernando Henrique Cardoso nem sequer era favorável ao presidencialismo, à época do plebiscito. Seu partido, o PSDB, foi o grande defensor do parlamentarismo, fragorosamente derrotado pela manifestação popular. Por artes da política, o senador tucano acabou ministro no governo Itamar Franco, tornou-se o realizador do Plano Real e se converteu no candidato lógico do governo à sucessão presidencial. Venceu a eleição, como todos se recordam, com o compromisso de dar sequência ao projeto econômico.
Não se negue que o presidente tentou, principalmente no seu primeiro ano de mandato, fazer passar as reformas estruturais. Todo seu empenho, porém, esbarrou no corporativismo, no clientelismo, na demagogia, no medo de mudanças, no imobilismo e, principalmente, na falta de patriotismo de ponderável parcela do Congresso. Os resultados obtidos desde então e até agora são pífios em face da magnitude do problema e da necessidade premente das reformas. Talvez pelas dificuldades, repentinamente o presidente descobriu que um mandato de quatro anos era pouco para concluir a obra da estabilização. De fato, em certo sentido tem razão: do modo como o Congresso age, nem em um, talvez nem em dois ou mesmo três mandatos será possível ver aprovadas as reformas.
Isto, porém, não justifica nem a tese da reeleição nem a sua colocação à frente das demais reformas. A possibilidade de concorrer a outro mandato não dará necessariamente mais força ao presidente para confrontar o Congresso. Se um presidente recém-eleito, com maioria absoluta, não conseguiu sensibilizar o Congresso, não há por que acreditar que a candidatura à reeleição lhe dará mais força. Inclusive porque poder ser candidato não é garantia nenhuma: é preciso ganhar a eleição.
Hoje, apesar de não ter conseguido concluir o programa econômico, o presidente Fernando Henrique Cardoso mantém, sem dúvida, uma posição forte junto ao eleitorado. Mas é inquestionável que perde terreno quando coloca um desejo pessoal à frente das principais necessidades de seu governo e da Nação. Esta atitude pode custar caro às futuras pretensões do presidente, com reflexos inclusive no programa econômico. Seria um preço alto demais para o Brasil todo pagar.

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