Restam ainda algumas batalhas jurídicas, mas afinal aconteceu o leilão da Vale do Rio Doce e é de se acreditar que, em breve, tudo se conclua em um processo que representa a sequência de passos necessários para que o Brasil deixe finalmente o marasmo em que vive. Houve tremendas manifestações contra o leilão, como anteriormente aconteceram idênticas demonstrações relativas à privatização de outras estatais. Seria de todo interessante, ainda agora, tentar analisar e aprofundar esta movimentação e, mais importante ainda, insistir em deixar evidente que a privatização não constitui perda da soberania de um país, assim como a estatização não representa mais vantagens para seu povo.
O Brasil tinha - e ainda tem - estatais em excesso. Na verdade, tem excesso de governo, uma terrível, imensa, anacrônica e incompetente máquina que gasta demais e não realiza seu trabalho. A culpa disto não é dos constituintes de 88, ou dos responsáveis por outras Cartas, que o País as teve em profusão, mas de um tipo de mentalidade atrasada. Em tese, o governo deve assumir atividades da iniciativa privada quando esta última não tem condições de fazê-lo, devido a investimentos avultados, que não darão o retorno esperado. Todavia, o governo não existe para isto. Sua função, especialmente numa democracia, é administrar a coisa pública, em nome do povo e em função dele. A presença do governo na atividade comercial, industrial ou de serviço é incompatível com sua própria finalidade.
A Vale, como a Petrobrás, a CSN e tantas outras empresas de porte, voltadas para atividades que envolvem determinados produtos tidos como essenciais (petróleo, minério de ferro etc.), foi apresentada como patrimônio do País e, assim, sua venda representaria perda nacional. Ocorre que uma estatal não é patrimônio do país. Pode ser, e infelizmente tem sido no Brasil, patrimônio dos que conseguem se ligar a ela, nomeados pelo governo, e que transformam o cargo público em lucrativo negócio, um feudo em benefício próprio e da corporação. O fato de a Vale ser lucrativa não melhorou em nada a vida dos brasileiros. Mas as estatais deficitárias, estas custaram (e ainda custam) caro ao povo, sem qualquer retribuição.
Para o Brasil, o importante não é um governo que seja dono da Vale ou de qualquer outra empresa, mas uma administração que cuide adequadamente de suas obrigações, garantindo ao povo segurança, educação, saúde, infra-estrutura e condições para o livre exercício da atividade de cada um. A Vale, em mãos de particulares, vai produzir tanto ou mais rendimento para o País, na forma de impostos, de mais empregos, de lucros que certamente irá auferir. O Brasil não ficou mais pobre porque a empresa deixou de ser do governo. E, seguramente, na medida em que prosseguir o processo de privatização, a situação nacional vai melhorar, inclusive porque isto diminui o tamanho do Estado e, por conseguinte, o tão comentado ‘custo Brasil’.
Ainda falta muita coisa para se atingir o ponto necessário - que é, aliás, o compromisso do governo com a estabilização da economia - e o melhor seria que cada passo não fosse tão duro e cada decisão positiva não tão demorada. A oposição faz parte, sem dúvida, da essência da democracia. Entretanto, diante da necessidade nacional, seria útil até mesmo repensar as posturas oposicionistas que vêm sendo adotadas ultimamente em face do processo das reformas estruturais, tão necessárias à desejada estabilidade.

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