Editorial
Empobrecimento comprovado
Em meio à verdadeira avalanche de informações que os técnicos lançam quase que diariamente sobre a população, um levantamento apresentado no Rio, no 13º Congresso Brasileiro e 7º Congresso Latino-Americano de Economistas, sobre a queda na renda per capita no Brasil (que é a divisão simples da riqueza do país pelo total de habitantes), desponta como um dado da maior importância.
O economista Antonio Barros de Castro divulgou os resultados de um estudo que realizou ao longo de quase todo o século, comprovando que em 1998 a renda brasileira era pouco superior à de 1910 e 1930. Barros de Castro, em seu levantamento, fez um comparativo em relação à economia dos Estados Unidos, revelando que em 1910 a renda per capita brasileira era de 16% em comparação à norte-americana; subiu para 17%, em 1930, chegou ao mais elevado patamar, 29%, em 1980, e caiu outra vez, chegando aos 22% em 98.
Não há muito mistério nos motivos pelos quais este total voltou a cair nos anos 80 e 90. Foram 14 anos de inflação (sendo que nos últimos anos o índice inflacionário atingiu totais inconcebíveis), seguidos de uma pequena bolha de crescimento, em consequência do Plano Real, mas que rapidamente foi sufocada pelas crises econômicas mundiais. Assim, o crescimento razoável que se notou, inclusive por causa do período do chamado milagre econômico, acabou se perdendo. A conclusão natural é a de que persiste, apesar de tudo, o empobrecimento da população. E esta é, sem dúvida, a questão fundamental no processo.
O economista assinala, na conclusão de seu trabalho, que esta situação decorre da falta de preocupação, nos círculos econômicos mundiais, com uma melhor distribuição de renda, não só no Brasil mas em todo o continente. Com efeito, o estudo de Barros de Castro mostra que também a Argentina vem enfrentando uma queda significativa em sua renda per capita, no período estudado. Em 1910, os argentinos estavam em situação importante, com sua renda per capital valendo 77% da norte-americana. O percentual foi caindo e, em 1998, chegou a 36%. É uma situação melhor que a brasileira, mas é também um dado negativo e que pode ser, em certo sentido, alarmante.
O que se tem, de certo modo, é resultado de uma política econômica mal formulada no sentido humano. É imperioso reconhecer que nos últimos tempos houve uma importante evolução na mentalidade do empresariado brasileiro ao perceber que era de seu interesse proporcionar melhores ganhos aos seus trabalhadores. Quem ganha mais, gasta mais. Isto é o que provoca o giro e o crescimento da economia. Todavia, no Brasil existem enormes obstáculos a que ocorra uma política de avanço salarial. Faltam medidas de estímulo efetivo por parte dos governantes, que não apenas estabelecem baixos valores para o salário mínimo como também tornam quase impossível, em função da legislação vigente, políticas de melhores salários na iniciativa privada.
Esta situação só poderá se modificar a partir de medidas concretas de estímulo por parte do governo. E não se pode perder de vista que sem a adoção de mudanças rápidas a tendência é de se ver todo o quadro piorar, com o empobrecimento da população se ampliando. Não há como pensar em mudanças e em crescimento econômico sem se levar em conta toda esta realidade. O agravamento da situação social no País é um reflexo deste quadro, reclamando a adoção de diretrizes mais objetivas para aquecer a economia, de modo a garantir a tão reclamada melhoria de vida para milhões de brasileiros. É um esforço possível, que depende fundamentalmente da vontade dos governantes, reclamando apenas uma mudança em sua atual postura recessiva e, em muitos casos, demagógica.





