Editorial
Diante das terríveis imagens que a TV tem exibido, face às informações chocantes que a imprensa apresenta, muitos ficam com a visão de que jamais o mundo foi tão violento, perigoso e assustador. E isto é um grande equívoco. Os fatos que hoje a imprensa divulga, seja a tragédia dos refugiados no Zaire, o genocídio cometido na ex-Iugoslávia, as atrocidades que semeiam dor e morte por todo o mundo, não são ocorrências inéditas. A História da Humanidade tem sido uma constante descrição de crimes e abusos.
A diferença é que hoje, como nunca antes na História, os fatos podem ser - e têm sido - mostrados a todos. E não se trata apenas de um efeito da melhoria das comunicações, do avanço tecnológico que traz, na atualidade, para cada casa, os fatos que ocorrem em qualquer ponto do planeta. Na realidade, a evolução da tecnologia é importante, mas o que efetivamente torna possível este conhecimento pleno é a liberdade que a imprensa tem, agora, como jamais o teve em outras épocas.
Celebrou-se ontem o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, data criada para destacar a importância que os meios de comunicação têm atualmente sobre a vida humana. Não se trata, como erroneamente se dizia, de considerar a imprensa o quarto poder numa democracia, mas de perceber o papel efetivo que ela tem como verdadeiro porta-voz das aspirações dos seres humanos em todos os pontos da Terra. Não é um poder, não precisa ser um poder, pretende e deve ser outra coisa: a voz dos que não podem falar, o ouvido e os olhos dos que não podem ouvir ou não conseguem ver. Revelando as atrocidades que ocorrem por toda parte, a imprensa não inventa, só mostra. Tenta ser, na verdade deve ser, o veículo para mostrar aos homens o que ocorre neste mundo, que é a casa comum da humanidade.
No passado - e não é preciso ir muito longe na História, tanto do mundo quanto do Brasil -, havia tantas ou mais ocorrências tenebrosas. Apenas, a divulgação era proibida. Os regimes totalitários, de esquerda ou de direita, não se preocupam em violentar a dignidade humana. Mas tomam todo o cuidado para evitar que seus crimes sejam divulgados. Para isto, amordaçam a imprensa, o que não é só uma figura literária, na medida em que prendem, torturam e matam aqueles que, por dever de ofício, repórteres e jornalistas, tentam mostrar a verdade.
Thomas Jefferson, um dos fundadores da República dos Estados Unidos, foi também o grande paladino da liberdade de imprensa, na formulação da Constituição norte-americana. Entendia ele, com a visão que só possuem os homens fadados a mudar a História, que o Governo do povo só poderia prevalecer se a população tivesse olhos e ouvidos atentos junto aos seus representantes e se houvesse plena liberdade para divulgar o que se fazia em nome do dono do poder. Liberdade que, é imperioso observar, não é e nem pode ser abusiva. Liberdade com responsabilidade, o que está, aliás, intimamente ligado.
Atualmente, o Brasil acompanha o debate pelo Congresso Nacional de uma nova Lei de Imprensa. E tem havido muita discussão em torno de alguns dispositivos que se pretendem incluir e que ameaçam o cerne daquela liberdade na medida em que são estabelecidas punições verdadeiramente apavorantes contra os profissionais de imprensa. O chamamento à responsabilidade, que é fundamental para o adequado exercício da liberdade de imprensa, não pode ser de tal modo abusivo que torne impossível ao profissional realizar seu trabalho. No Brasil, como no mundo, a imprensa livre vem executando trabalho excepcional na defesa da dignidade humana. E deve continuar a fazê-lo, em nome da própria democracia.





