Fragorosamente derrotado nas eleições, logo depois de haver levado a Grã-Bretanha à vitória na Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill disse que, de vez em quando, o eleitorado tem que dar um bom pontapé nos políticos para deixar claro quem é o patrão na democracia. A violenta derrota sofrida quinta-feira pelos conservadores britânicos, depois de 18 anos de comando político, parece ser exatamente isto o que o antigo líder dos Aliados sugeriu: o eleitorado resolveu mostrar, novamente, quem é que manda.
Quando se observa que a plataforma do novo primeiro-ministro britânico, Tony Blair, não é muito diferente da apresentada pelos conservadores, já que o chamado novo trabalhismo que o jovem político apresentou tem pouco a ver com as grandes propostas de esquerda, percebe-se que do ponto de vista prático as mudanças não serão muito grandes. Para alguns observadores, o que vai haver na Grã-Bretanha sob Blair será uma sequência do governo de Margareth Thatcher, que mudou os rumos daquele país, convertendo-se na pessoa que por mais tempo ficou ali continuamente no poder.
Assim, o eleitorado não mudou de idéia, mas mudou de nomes. Cansou das mesmas caras. Jovens que votaram pela primeira vez jamais tiveram oportunidade de conhecer outro governo que não o do Partido Conservador, que se manteve nos últimos 18 anos à frente da administração britânica. Mas, principalmente, a maioria dos eleitores acabou deixando clara uma postura altiva, produzindo a alternância no poder, que é, sem dúvida, vivificante para a democracia. Naturalmente, John Major, o premier derrotado, e seus companheiros de partido não gostaram nada. Os partidos, como se sabe, existem para tentar atingir o poder. Quando estão nele, querem se manter. A luta é constante. Mas, e isto é essencial, o poder não é dos partidos, e sim do povo.
A fragorosa derrota eleitoral do partido governante na Grã-Bretanha deveria servir de lição aos políticos em todos os países democráticos. Pretender se manter no poder é legítimo. Desconhecer, porém, as aspirações populares, usar de artimanhas e subterfúgios para isto, não o é. Entre nós, há pouco tempo, viu-se a mobilização que o Executivo Federal promoveu para conseguir aprovar a emenda que garante aos seus titulares o direito de concorrer à reeleição. Nem mesmo em relação às tão necessárias reformas estruturais se viu tamanho empenho do Executivo. Sabe-se, naturalmente, que alterações políticas (que inclusive podem beneficiar diretamente os interessados), são mais fáceis que modificações como as reformas que o País reclama.
Entretanto, o risco que existe é o de se esquecer que ter o direito de disputar a reeleição não é garantia de nada. Que o diga o sr. John Major, hoje, que perdeu o cargo, deixou a liderança do partido e foi até despejado de sua residência, a casa em que moram os primeiros-ministros britânicos. Para conseguir do povo o mandato, as artimanhas políticas podem valer pouco. Erra quem duvida do discernimento do povo numa democracia. Os britânicos têm, certamente, experiência histórica maior que a dos brasileiros. Entretanto, a observação de fatos recentes na história nacional evidencia que o eleitor brasileiro também sabe de sua força e a usa bem.
Na Grã-Bretanha, após quase duas décadas de atuação dos conservadores, começa agora uma nova fase. O povo, usando as palavras de Churchill, aplicou um sonoro pontapé nos que o lideravam há tanto tempo. Esta decisão do eleitor inglês poderia servir para meditação aos políticos brasileiros, especialmente os que se sentem muito senhores da situação, esquecidos do fato de que são meros representantes do verdadeiro dono do poder.

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