Tem sido uma constante no transcurso do Dia do Trabalho a afirmativa segundo a qual o trabalhador pouco ou nada tem a celebrar. Hoje, diante do anúncio de um minguado reajuste para o mínimo, a impressão é a de que continua válida a observação. Em realidade, o reduzido aumento no valor do mínimo não pode servir como alegação sobre a falta de motivos para comemorar o dia que é, em quase todo o planeta, dedicado ao trabalhador, ainda mais se for levado em conta o fato de que a atual situação brasileira é diferente da que se vivia há alguns anos. A moeda, embora ainda não plenamente estável, é forte, os preços - principalmente dos alimentos e de alguns tipos de vestuário -, se mantêm em níveis constantes, o poder aquisitivo do trabalhador melhorou um pouco.
O que está faltando para que haja efetivos motivos de comemoração é a adoção de política mais objetiva de estímulo ao trabalho, que possibilite a criação de mais empregos, que abra portas para crescente multidão que quer trabalhar e não tem vagas. O problema de agora é o mesmo de há décadas. O que mudou, entretanto, foi em primeiro lugar a visão do trabalho, dentro do país. Há atualmente conscientização maior a respeito do valor e da importância da atividade produtiva. Ademais, também é possível observar, por grande parte do empresariado, mudança na visão sobre o salário. Muitas empresas já tiveram a percepção segundo a qual é importante pagar bem ao trabalhador para que ele possa ser agente do desenvolvimento econômico. Trabalhadores mal pagos, não consomem.
Também se observou importante alteração na relação patrão-empregado, de tal modo que houve esforço concreto de ambas as partes, especialmente em São Paulo, para superar os entraves que uma anacrônica legislação trabalhista cria para a geração de mais empregos e até para a melhoria dos salários. Hoje é bem perceptível a realidade segundo a qual o que mais dificulta uma política de maiores salários, de incentivos à produção e até de criação de empregos, em grande parte, é a legislação trabalhista, completamente atrasada em relação às necessidades tanto do trabalhador quanto do próprio empregador.
Esta não é uma situação só brasileira. Com efeito, esta semana anunciou-se um acordo, na Espanha, envolvendo sindicatos, empresários e governo no sentido de modificar a legislação do País para criar condições de enfrentar o desemprego, que é elevadíssimo ali. O acordo esboçado, que prevê mudanças em questões relativas aos contratos de trabalho, às indenizações por demissões e até sobre a situação dos trabalhadores mais jovens e mais velhos (em ambos os casos, enfrentando preconceitos para conseguir trabalho), foi recebido com euforia, na esperança de que as alterações possam, de fato, mudar o quadro atual. As soluções espanholas, eventualmente, podem não ser adequadas ao Brasil. Todavia, é relevante observar o ponto comum: esforço conjunto dos diretamente interessados para mudar leis que foram adequadas à época, mas reclamam readaptação à nova situação mundial.
O pequeno avanço já observado nos esforços para conseguir superar as dificuldades da lei, a nova mentalidade que domina um número crescente de empresários, a maior conscientização do trabalhador brasileiro, estes são fatos que merecem comemoração no Dia do Trabalho. É certo que são, ainda, pequenos avanços em face da magnitude do problema, indicando que se faz necessária uma luta constante no sentido de aprofundar o assunto, até chegar a soluções concretas. Com um trabalho criterioso, talvez no próximo 1º de Maio haja mais o que celebrar.

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