A verdadeira revolução, que incluiu uma batelada de ações na Justiça e choques entre manifestantes e policiais, na tentativa de evitar o leilão de privatização da Vale do Rio Doce, induz naturalmente a um questionamento efetivo sobre o assunto. E a pergunta inicial que salta aos olhos seria sobre o que é que o povo brasileiro ganhou até agora pelo fato de a Vale ser uma estatal. Eventualmente, seria de todo interessante ampliar esta pergunta para tentar descobrir qual tem sido a vantagem da população pelo fato de a Petrobrás ou de tantas outras empresas serem estatais. Houve uma época, de intenso nacionalismo, em que se insistia sobre o enorme perigo da dominação multinacional, que se faria pela apropriação de nossas incontáveis riquezas. Era preciso, diziam, defender os tesouros que a voracidade internacional insistia em abocanhar.
Daí, surgiram inúmeras ‘brases’, além de outras que não receberam o sufixo, mas também passaram a fazer parte do elenco das coisas ‘nossas’, protegidas de todos os modos contra a sanha dos que queriam tomar as riquezas, o grande capital deste país. E qual foi a consequência real disto tudo? Nestes anos todos, a Petrobrás não ofereceu ao brasileiro petróleo mais barato, nem conseguiu, apesar de toda a proteção, garantir sequer a tão sonhada e necessária auto-suficiência nacional com este combustível. Mas uma coisa foi conseguida: formou-se ali uma casta de privilegiados que formam uma verdadeira aristocracia no país, com proventos fantásticos, vantagens sem conta e, para completar, aposentadorias nababescas.
Pode-se, porém, até deixar este aspecto de lado, embora os privilégios dos funcionários da Petrobrás, e também de outras estatais, sejam ofensivos ao País, buscando-se apenas um outro lado, aquele relativo ao papel que o Estado deve desempenhar na economia. Em tese, os governos devem assumir determinadas atividades de enorme importância para o desenvolvimento e que exigem investimentos tais que a iniciativa privada não possa desenvolver. A teoria indica também que no momento em que surgem condições para que estes empreendimentos possam ser tocados por particulares, o Estado deles deve se afastar. E esta situação deveria ser natural em um país democrático, com economia de mercado. Ocorre que, no Brasil, as coisas não funcionam assim.
Depois que se criam verdadeiras capitanias hereditárias, funcionando de modo a explorar o País (mais do que as eventuais reservas para as quais foram criadas), as estatais se tornam feudos, defendidos pelos que deles se beneficiam e por muitos que, inocentemente, acabam pensando que estão lutando pelo Brasil. Mas o Brasil é o que menos ganha com isto. Na verdade, se as estatais dão prejuízos, é o Brasil (quer dizer, o povo) quem paga. Se dão lucro, ganham os marajás, que se encastelam ali. E as riquezas que deveriam ajudar a produzir de fato situação melhor para o País, continuam a ser usadas de modo inadequado.
Os governos não existem para tocar estatais, lucrativas ou não. Seu papel é outro. Privatizar, ainda mais na situação atual do País, é o caminho correto até mesmo para devolver ao Estado sua função real. A Vale hoje dá lucros, e vai continuar assim nas mãos de particulares. E, certamente, será muito mais lucrativa porque terá gestão objetiva, sem os protecionismos do sistema estatal. Quanto aos brasileiros, vão se beneficiar na medida em que o empreendimento gerar mais impostos, mais empregos, dentro de uma filosofia positiva. Infelizmente, porém, as forças enquistadas nos privilégios continuam a fazer valer uma posição que, de fato, não interessa ao Brasil.

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