O presidente da Eletrobrás garante que os blecautes que atingiram nove Estados nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, na semana passada, não foram causados por qualquer tipo de deficiência da empresa, assegurando que havia, em ambas as ocasiões, energia suficiente para atender à demanda. Com efeito, uma das primeiras idéias a ocorrer em virtude do problema foi a de que uma sobrecarga teria provocado o desligamento automático, o que é uma possibilidade diante da atual realidade de consumo no país. Na verdade, há tempos têm sido feitos comentários sobre a necessidade de se investir mais no setor energético para prevenir precisamente ocorrência deste naipe, com blecautes seguidos em momentos de maior demanda.
A empresa assegura que não foi o que aconteceu, mas também não tem, até agora uma explicação a respeito. Já o ministro Raimundo Brito chegou a admitir a possibilidade de que os dois blecautes possam ter sido motivados por sabotagem de origem política, o que é uma afirmação muito séria, ainda mais partida de membro do primeiro escalão. É certo que esta avaliação foi feita no condicional, mas se existe algum temor sobre este tipo de ocorrência, é certo que se espera das autoridades uma ação concreta visando proteger as linhas de transmissão, os geradores, enfim todo o sistema que é de vital importância para a economia nacional.
Efetivamente, o que se reclama, mesmo, não são hipóteses nem justificativas parciais, como a do titular da Eletrobrás, que não conseguiu ainda detectar as causas da ocorrência. O que se faz absolutamente necessário é o conhecimento das causas e a adoção de medidas objetivas para evitar sua repetição. E ainda que a Eletrobrás possa garantir com total segurança que tudo resultou apenas de causas acidentais, é certo que se reclama de parte das autoridades um posicionamento muito sério em relação a todo o problema da energia, levando em conta inclusive o alerta sobre a necessidade de maciços investimentos em novas obras para garantir a continuidade do abastecimento de eletricidade para o País.
O Brasil sempre se ufanou, com certa razão, da sua potencialidade no setor de energia elétrica. Quando ocorreu a crise do petróleo, uma das decisões oficiais foi a de se investir na construção de usinas hidrelétricas para garantir o abastecimento interno. Veio inclusive a grande obra de Itaipu, sem dúvida um marco no setor. Entretanto, o País continua a apresentar um crescimento que exige aumento na produção energética o que implica em novos e fortes investimentos no setor. Nos últimos anos, os avisos sobre o risco de um grande blecaute, decorrente do aumento crescente da demanda e da falta de novas obras no setor, foram quase desconsiderados. Sabe-se igualmente que a recessão dos anos 80 e início desta década invalidou parte das projeções alarmistas.
Ocorre que a ameaça persiste. Se, de fato, os blecautes da semana passada, nada têm a ver com uma eventual elevação de demanda, isto não significa que a questão está resolvida. Na melhor das hipóteses, o Brasil apenas ganhou algum tempo. Todavia, sem definições claras para a política energética - o que envolve novas obras e muitos investimentos - vai ser difícil superar os problemas que surgem com a demanda crescente por parte da indústria e da população em geral. Nos últimos anos, a única coisa que se tem percebido como ação destinada a diminuir a demanda nos horários de pico foi a utilização do horário de verão, que tem vigorado por mais de quatro meses ao longo do ano. Isto ajuda, mas é certo que para enfrentar o problema será preciso fazer alguma coisa mais. E depressa.

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