Editorial
Intervencionismo inaceitável
A Colômbia enfrenta atualmente uma situação verdadeiramente dramática, não só por causa da força dos cartéis da droga, mas e principalmente devido à ação cada vez mais forte de grupos paramilitares, dos quais as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) representam o maior perigo. A atuação do forte grupo está provocando inclusive reações internacionais, tanto dos vizinhos da Colômbia - eventualmente preocupados com a ação guerrilheira -, como de outras nações (entre as quais os Estados Unidos), que já chegaram até a sugerir uma intervenção militar direta, do tipo da que se realizou em outros continentes. O Brasil, fiel à doutrina de não-intervenção em assuntos de outros países, postura que trouxe alguns sérios problemas nos anos 60, quando os EUA pressionavam para uma ação continental contra Cuba, já se posicionou a respeito, assinalando que não apóia e nem participa de qualquer tipo de atividade bélica em território colombiano. Esta postura parece ter sido avaliada erroneamente por membros daquele grupo, Farc, que anunciaram a intenção de instalar um escritório no Brasil, idêntico ao que existe no México.
É um grande e perigoso equívoco. A postura brasileira no caso, contra a intervenção externa e que, neste quadro, não admite sequer qualquer tipo de participação do país, não implica em aceitação ou reconhecimento de uma ação flagrantemente ilegal, como o é a da guerrilha que usa atitudes absolutamente inaceitáveis em sua luta contra o regime colombiano. Por outro lado, não apenas evidencia o crescimento daquele movimento, mas também uma intenção efetiva de internacionalizar o conflito.
O presidente da Colômbia, Andrés Pastrana, com justificada razão, assinalou que não permitirá nenhuma pressão ou intervenção nos assuntos internos da Colômbia. ‘‘Jamais aceitarei como presidente da Colômbia pressões indevidas nem intervenções alheias, nem ações que depreciem a dignidade de um povo que tem sofrido e realizado enormes sacrifícios’’, disse Pastrana num discurso transmitido quarta-feira em rede nacional de rádio e televisão. Sem referir-se a nenhum país, o presidente assinalou que ‘‘é com a cooperação respeitosa entre os estados e não com intromissões indevidas que se preserva a amizade entre as nações’’. Pastrana também criticou os que continuam propagando, ‘‘com infundadas razões a injusta avaliação’’ de que a Colômbia é uma ameaça aos seus vizinhos. Vários países da região vêm declarando que a Colômbia se converteu numa ameaça para a região por causa de seu conflito armado interno.
Não poucas vezes, na História da humanidade, os chamados grupos de guerrilha acabaram se tornando Poder. Isto, só para lembrar, ocorreu há cerca de 40 anos em Cuba, e em muitos outros países do continente, mergulhados em sedições e revoluções. Em praticamente todos os casos, foram questões resolvidas internamente, ainda que, muitas vezes, de modo sangrento. Pretender agora estabelecer uma nova doutrina, justificando um tipo de intervencionismo externo, para ‘‘ajudar o governo colombiano’’ constitui uma ingerência efetivamente discutível em assuntos que dizem respeito ao povo daquele país. Talvez se devesse contar ao presidente Pastrana o que disse o presidente brasileiro Marechal Floriano Peixoto quando enfrentou sérias agitações no Rio, ao receber a interpelação da Embaixada britânica sobre como seriam recebidos no Brasil marinheiros daquele país que desembarcassem em território nacional para ‘‘restaurar a ordem’’. Floriano respondeu, laconicamente: ‘‘À bala’’.

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