Editorial
Quando o real surgiu, aconteceu, entre tantas outras coisas, uma eufórica explosão de consumo. A repentina mudança, com os preços parando de subir a cada dia, como vinha ocorrendo ao longo dos anos de inflação desenfreada, provocou a natural reação consumista. Em pouco tempo, porém, veio o choque da realidade, com o aumento na inadimplência pelo simples motivo de que assim como os preços, os salários também ficaram estáveis. A primeira onda de choque foi, felizmente, superada, mas o vício inflacionário é mais difícil de superar. Por isto, principalmente, o anúncio do valor do mínimo, a vigorar a partir do dia 1º, provocou certo inconformismo.
Conforme o anúncio oficial feito pelo ministro Pedro Malan, o mínimo, que é de R$ 112,00, vai para R$ 120,00, um aumento de apenas R$ 8,00, um reajuste de 7,14%. Como valor absoluto, é sem dúvida baixo. Dentro porém da filosofia de uma situação econômica em que o objetivo é a estabilidade de preços, e em face até do índice de perdas ocorrido ao longo dos últimos 12 meses, é o valor adequado. A correção não acompanha a inflação cheia do período, nem contempla eventuais projeções para a inflação futura, mas isto também faz parte da engenharia do programa econômico que teve na desindexação seu ponto de partida.
O problema tem que ser enfocado sob a ótica ampla de todo um programa que visa, além da estabilidade, a mudança na própria mentalidade a respeito de preços e salários. O mínimo, efetivamente, não é suficiente hoje (como não tem sido há décadas) para atender às necessidades básicas de uma família padrão. Mas a idéia de uma economia em expansão é a de que o mínimo é só uma referência. E, na verdade, conforme dados novamente divulgados, o universo dos trabalhadores do mercado formal que ganham o mínimo é reduzido. O valor serve como referência para aposentadorias, conforme está na própria Constituição, também fazendo parte da vida de funcionários públicos municipais em centenas de prefeituras pelo País. Não há dúvida de que aposentados, pensionistas e boa parte do funcionalismo público merecem ganhar mais. Entretanto, há o outro lado, o do equilíbrio da economia. Preços e salários andam juntos. Os primeiros estão mais ou menos contidos. Determinar uma alta nos segundos, provoca inevitável pressão altista geral.
No espírito de uma economia estável, a idéia não é a de se elevar o salário, mas a de manter os preços, até mesmo fazê-los retroceder. Já os ganhos salariais se situam, em tal caso, no aumento da produtividade, no melhor aproveitamento da capacidade de cada um, no próprio crescimento empresarial, provocando uma distribuição mais ampla dos recursos. Importa sempre insistir, também, que o importante para a economia brasileira, hoje, não é salário maior e sim preço menor. Um quadro que, embora a inflação ainda continue a se fazer presente - agora porém com índices quase civilizados -, tem sido percebido. O valor da cesta básica não subiu tanto quanto a inflação. A oscilação nos preços tem sido diferente da que se observava ao período pré-real.
A elevação do mínimo, hoje, não pode efetivamente ser vista como no passado. O anúncio do novo valor, a partir de 1º de maio, não tem hoje o apelo de outras épocas, quando o mínimo era apresentado como um presente de Dia do Trabalho. Era, como qualquer um percebia então, um engodo, porque os elevados percentuais do reajuste já vinham defasados pela inflação exacerbada, completado com a escalada altista que acompanhava inevitavelmente aquele aumento. Hoje, a situação é diferente e este anúncio tem outra conotação. Não é pelos R$ 8,00 a mais do mínimo que se deve comemorar a data, mas pela valorização do trabalho, como fator de desenvolvimento de um país.





