Editorial
O custo do dinheiro
A questão das taxas de juros no Brasil acaba de ser alvo de uma observação, senão inédita, ao menos inusitada, feita pelo próprio presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Ele anunciou a realização de um estudo para descobrir porque é tão grande a diferença entre os juros básicos da economia e as taxas na ponta do consumo, um dos flagelos da vida brasileira em todas as atividades. A taxa determinada pelo Comitê de Política Monetária para os juros brasileiros está, atualmente, em um dos patamares mais baixos dos últimos tempos, em 19,5%. Na ponta do consumo, entretanto, os juros médios estão em 121,96% ao ano, no crédito direto ao consumidor, e chegam a assustadores 326,14% por ano nos empréstimos pessoais, conforme números da pesquisa mensal sobre juros da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade - Anefac.
Esta é uma das questões que mais provocam conjecturas do cidadão comum. Existe uma taxa de juros oficial, a do Banco Central, que já foi muito elevada, mas que atingiu, depois da estabilização da moeda, patamares quase civilizados. Não é ainda a taxa cobrada por bancos centrais de países desenvolvidos - abaixo dos 10% ao ano -, chegou a atingir percentuais muito altos com as crises internacionais, mas mesmo assim ficou em alturas que seriam suportáveis para os brasileiros em geral. Todavia, a taxa oficial é uma espécie de miragem para a população. Os números levantados pela citada Anefac são por si indicativos. Em uma economia que chegou a ter, ao longo de um ano, uma taxa inflacionária abaixo dos dois dígitos, juros anuais na casa dos 300% representam um peso insuportável para o cidadão. E isto também acaba se refletindo sobre a economia porque é impossível (quase que um aceno para a insolvência) assumir compromissos para pagar juros tão elevados.
A própria economia brasileira poderia se beneficiar tremendamente de uma política de juros civilizada. Com taxas razoáveis, o empresariado poderia voltar a investir, o consumidor teria mais condições (e coragem) para comprar, o ciclo todo da produção acabaria se tornando mais dinâmico e ágil, com todas as consequências disto decorrentes. Todavia, até agora esta possibilidade parece um sonho inatingível. E o fato de esta realidade não merecer jamais a atenção mais direta das autoridades envolvidas com o assunto tornava a impressão de impossibilidade de mudança numa situação muito concreta. Muitos falam, o empresariado critica, o povo sofre, mas os juros continuam a seguir uma política incompreensível e asfixiante.
O comentário do presidente do BC, feito durante palestra sobre as políticas monetária e cambial para alunos da Escola Superior de Guerra, no Rio, abre uma expectativa positiva. Fraga já indicou em seu pronunciamento que o Banco Central descobriu que 20% a 30% do ‘spread’ (diferença entre as taxas) é provocado por impostos e compulsórios. Agora, o estabelecimento vai analisar os riscos e qualidades das garantias para, finalmente, avaliar os custos e margens das instituições financeiras. Ao final, o organismo terá pelo menos uma base para descobrir o motivo da diferença entre a taxa de juros oficial e a que é cobrada ao consumidor. A partir daí, pelo menos é o que se espera, talvez surjam não apenas indicativos relativos aos motivos de uma situação tão anômala, mas também algumas medidas efetivas para reduzir este fardo.
Curiosamente, quase nada tem sido feito de efetivo neste complexo setor. Entretanto, é possível perceber que se houver alterações significativas nas taxas de juros praticadas no crédito direto ao consumidor ou nos empréstimos pessoais, os efeitos positivos sobre a economia serão importantes. Dinheiro mais barato, sem dúvida, vai estimular o processo produtivo.

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