Passados apenas três dias da bem-sucedida ação militar para pôr fim ao sequestro que os guerrilheiros do MRTA sustentaram por quatro meses na Embaixada do Japão em Lima, avultam as denúncias de que os militares peruanos consumaram uma chacina e não apenas o salvamento de reféns. Nenhum dos guerrilheiros sobreviveu, mas não porque todos tenham resistido até o fim ao ataque. Reféns contaram que viram quatro deles se renderem. Embora não se possa esperar uma revelação completa do que aconteceu durante a ação, há fortes indícios de que houve execuções sumárias na mansão.
A distinção que existe entre governos legais e governos marginais está no fato de que os segundos fazem vista grossa para a lei ou a descumprem declaradamente. Os primeiros, ao contrário, pautam-se pelo rigoroso respeito à lei, mesmo depois que o criminoso caiu em suas mãos. Daí porque pessoas pouco civilizadas considerem que os criminosos, inclusive terroristas políticos, levam vantagem imerecida sobre os demais cidadãos. Alegam que eles não têm qualquer limite para sua ação, enquanto os governos têm de obedecer à lei. Mas este é um erro perigoso, pois conduz rapidamente ao completo cerceamento das liberdades individuais.
Os Estados organizados podem ter, em dados momentos, dificuldades para enfrentar desafios como o que o governo peruano teve de resolver. E isto porque o criminoso age sem qualquer preocupação legal ou moral. Mas qualquer governo, posto ante a chantagem terrorista, tem de usar os meios legais para enfrentar a situação, sob pena de nivelar-se ao bando criminoso que quer derrotar.
O uso da força não é descartado pela lei. Na situação que enfrentou, o governo peruano esgotou todas as possibilidades de negociação e o que lhe restava era agir ou submeter-se à chantagem que desmoralizaria o Estado perante a sociedade, local e internacional. Porém, o uso da força legal tem um limite no mundo civilizado. Com o elemento surpresa a seu favor e a informação de que os guerrilheiros jogavam futebol de salão sempre na mesma hora e no mesmo lugar, a impressão é a de que seria possível salvar os reféns e prender se não todos, pelo menos um bom número de guerrilheiros. Para reforçar esta hipótese há o fato de que somente um dos reféns foi morto, o que indica que os guerrilheiros nem deveriam estar armados.
A questão sobre se os guerrilheiros foram mortos por ordem expressa dos comandantes ou pelo impulso dos soldados que invadiram a mansão é irrelevante. De um como de outro modo, a responsabilidade final é do comando e, por consequência, do Estado peruano. Com isto, o governo Fujimori, que poderia ter, apesar de todo o desgaste provocado pela crise, realizado uma façanha brilhante, acabou se colocando do lado oposto aos princípios de uma sociedade civilizada, dirigida por representantes legítimos, sob o abrigo da lei. E por ter ultrapassado os padrões legais, o governo peruano se sujeita a sofrer novos ataques dos terroristas, que já anunciam ‘vingança’.
A ação militar foi legítima e justificável até o momento em que, supostamente, poderia ter evitado sua transformação em uma chacina. O excesso, a retaliação, iguala o Estado aos marginais. Depois de tudo, esta deve ser a maior lição que precisa ficar deste sangrento e doloroso episódio.

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